0# CAPA julho 2015

SUPER INTERESSANTE
Edio 349 julho 2015

[descrio da imagem: imagem de uma mulher, jovem, aparecendo do tronco para cima. Est de frente, com olhos bem abertos, assustada. Ao redor aparecem trs pares de mos masculinas, agarrando em seu peito, cabelo prximo ao pescoo e prximo a cabea.]
ESTUPRO
O MAIS ACOBERTADO DOS CRIMES
Uma em cada cinco mulheres ser estuprada. No entanto, at as mais respeitadas instituies - escolas, igrejas, universidades, famlias  varrem a violncia sexual para baixo do tapete. Por qu? E at quando?
Por Karin Hueck

[outros ttulos]
ICAR: O CARRO DA APPLE
Investigamos o maior segredo do Vale do Silcio. 

FOMOS CONHECER O NETFLIX POR DENTRO...
 
...E VISITAMOS SEU MAIOR RIVAL: O PIRATA POPCORN TIME

NOSSO EDITOR FOI ESFAQUEADO E CONTA O QUE APRENDEU

RICHARD DAWKINS: "QUERO JANTAR COM JESUS"

QUAL O MELHOR SMARTPHONE BARATO? A SUPER TESTOU

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1# PRIMEIRA PGINA
2# ESSENCIAL
3# SUPERNOVAS
4# REPORTAGENS
5# ORCULO
6# MUNDO SUPER
7# REALIDADE ALTERNATIVA
8# LTIMA PGINA
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1# PRIMEIRA PGINA julho 2015
DA MESA DO EDITOR

TRABALHO E PAIXO

     A brincadeira que a gente faz na redao  que 1976 mudou a histria da divulgao da cincia. Afinal, naquele ano duas coisas fundamentais aconteceram: Richard Dawkins escreveu o clssico O Gene Egosta e nosso redator-chefe Alexandre Versignassi, mestre dos textos deliciosos sobre fsica quntica e outras complicaes, veio ao mundo. 
     Mas, falando srio: para o Versi, o Dawkins  tipo Deus. "No s ele  o meu maior dolo. Ele  tambm dolo de todos os meus outros dolos", diz. No estranhe portanto que a entrevista que Versi fez com o bilogo evolucionista britnico comece com uma gaguejada. Em quase uma dcada, Versi j escreveu e editou muita coisa importante aqui nesta SUPER, sobre cincia hard e sobre economia (outra rea que ele domina), mas esta reportagem foi especial para ele. 
     Assim como a reportagem de capa desta edio foi especial para nossa editora Karin Hueck, que comandou um time afiado de reprteres numa misso complicadssima: quebrar o silncio sobre  o estupro, um dos crimes mais comuns do mundo, e tambm o mais acobertado. 
     Karin  profissional de primeira. Editora cuidadosa, precisa, atenta aos detalhes, ela j lidou com uns mil temas diferentes, da sexualidade das plantas  ladroagem dos polticos. Mas, para ela, nunca nenhum assunto foi to importante quanto o deste ms. 
     H alguns anos, Karin notou os mecanismos invisveis que nossa sociedade criou para manter as mulheres "no seu devido lugar". Desde ento, ela se interessa pelas questes de gnero e toca projetos que lidam com o assunto. Por exemplo, foi ela que fez a pesquisa "Chega de Fiu-Fiu", que causou polmica anos atrs revelando algo que muitos homens nem imaginavam - que cantar mulheres  muitas vezes uma violncia. Pois finalmente chegou a hora de enfrentar a maior das violncias sexuais - e na capa da SUPER. 
     Karin e Versi, como todo mundo aqui, ralam todo ms. No  incomum ver o Versi arrancando cabelos em frente ao computador, tentando resolver um texto, editar um livro ou dar jeito numa edio especial. Tampouco  raro ver a Karin chegando com olheiras profundas depois de passar a noite em claro preocupando-se com o trabalho. 
     O combustvel dessa ralao toda  a paixo que eles tm pelo que fazem. Os dois encontram sentido fazendo a SUPER. E, quando o trabalho faz sentido, at as coisas mais difceis ficam fceis. 
Denis Russo Burgierman
DIRETOR DE REDAO
DENIS. BURGIERMAN ABRIL.COM.BR
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2# ESSENCIAL julho 2015

     2#1 UMA IMAGEM... ...MIL PALAVRAS
     2#2 DESCOBRI QUE MINHA VIDA VALE r$ 700. E, DO JEITO QUE T,  PEGAR OU LARGAR

2#1 UMA IMAGEM... ...MIL PALAVRAS
NA PGINA AQUI DETRS: Urso polar devora um alien no arquiplago de Svalbard, no norte da Noruega. Brincadeira: a carcaa ali  a de um golfinho. Urso polar no come golfinho. Come foca. Mas as coisas esto mudando: com menos gelo l em cima, a populao de focas diminuiu, s que a de golfinhos aumentou. E os ursos polares esto se adaptando a um cardpio novo: agora mergulham para caar cetceos, e levam at o seco para ir comendo devagarinho.


2#2 DESCOBRI QUE MINHA VIDA VALE r$ 700. E, DO JEITO QUE T,  PEGAR OU LARGAR
Tomei quatro facadas numa tentativa de assalto e sa no lucro: vivi para contar uma histria particular sobre como banalizamos a vida.
POR TIAGO JOKURA

     SETECENTOS REAIS era quanto eu valia em 14 de maio de 2015, numa quase madrugada em So Paulo. Na hora, nem deu tempo de cotar no Google. Era o preo do telefone que eu carregava num beco escuro e que me conectou  ponta de uma arma branca, como as centenas que matam brasileiros todo ms. 
     O encontro foi s cegas e a abordagem do sujeito no deixava clara a inteno. Quando tentou tomar o celular e no concordei, firmamos as bases do contrato. Para ambas as partes, minha vida era to obsoleta quanto o aparelho que eu carregava na mo. Nada mais, nada menos. Ele cumpriu a parte no acordo e executou o pagamento em quatro vezes. S no liquidou a fatura por um erro na transao. Falha no sistema. Talvez provocado pela  falta de energia eltrica na vizinhana. O breu se instalou na vspera, quando um sujeito vestindo uniforme de uma empresa de telecomunicaes, adesivo no carro e tudo, fingia fazer reparos na rede enquanto roubava fiao. Para o pirata caador de cobre eu valia, no mximo, R$ 15 o quilo. 
     No caminho para o hospital, a cotao pegou carona com o amigo que me socorreu. E acelerou pesado. Em poucos minutos, somando o valor das multas pelos sinais vermelhos furados e os limites de velocidade excedidos, estimo que minha vida tenha atingido o patamar de R$ 3.800: um recorde. Vou parar de calcular agora que cheguei ao auge. E ao pronto-socorro. 
     Mos ao alto era a melhor posio para ficar na maca - assim incomodava menos a estocada no sovaco e a mais funda, que atravessou as costas e espetou o pulmo. Passadas algumas horas, hemograma, raio-x, tomografia e ultrassom informavam que o corpo estava bem. O ltimo exame foi de conscincia. Me dei conta de que assim como o telefone foi poupado tambm no me tiraram o juzo. Minha fome, de quase 24 horas por causa do perodo de observao clnica, no era de vingana e no tinha nada a ver com reduo disso, criminalizao daquilo e pena de sei l o qu. Foi s ento que me senti a salvo - de mim mesmo. Percebi que o choque no me paralisaria, que no me interessava o sangue nem o sofrimento do meu algoz, e que continuaria disposto a seguir pelos mesmos caminhos de todo dia. Ainda que reagir assim fosse andar na contramo. Dentro e fora do hospital, reparei que ignorar a revolta, o revide e o medo choca mais do que levar facada na rua. 
     O que se espera de uma vtima de FAB (sigla que os plantonistas usavam na emergncia para meus "ferimentos por arma branca")  trocar de caminho, de meio de transporte, de casa, de pas. Foi o que me sugeriram vrias vezes. Continuar levando a mesma vida chega a ser ofensivo para alguns, condenvel mesmo: fui e ainda sou acusado de ser inocente demais. Longe disso. S no quero perder a conexo com o lugar em que vivo e com as  pessoas que cruzam comigo. Deixar de circular  matar um pouco a prpria cidade. Quanto menos gente na rua, mais ela vira territrio hostil, terra de ningum. Transitar pela rua, para mim,  inegocivel, um jeito simples de valorizar a vida. Acho muito mais arriscado viver como se ela no valesse nada: levando facada como se fosse do jogo, por exemplo. At hoje, a pergunta que mais ouo sobre o episdio, a preocupao mais latente que se manifesta ao notarem estar tudo bem comigo,  "mas ele levou o celular?". A maioria se decepciona ou se revolta quando mostro o telefone velho e estilhaado. Como se o assalto fosse justificvel se tivesse cumprido seu objetivo.  a verso com cortes do "estupra, mas no mata": o "esfaqueia, mas leva". 
     Passada uma semana da violenta negociao, sentei para escrever este texto diante do noticirio e entendi melhor a banalizao do esfaqueamento: minha histria no era nada especial. Um ciclista fora morto a facadas na Lagoa Rodrigo de Freitas, que conecta alguns dos bairros mais ricos do Rio de Janeiro. Uma turista chilena, ferida no pescoo enquanto tomava sol na Glria, tambm no Rio, tambm pela tal da arma branca. Para completar o bloco, um cidado carioca, portando um faco, foi preso preventivamente antes que tivesse a chance de negociar a vida de algum por a. Poucos minutos depois, no meu bairro paulistano, passei por cima de marcas de sangue pisado na esquina. Elas indicavam a trajetria final de algum arrastado do asfalto at a calada por onde passo todo dia levando e trazendo meu moleque da escola. Isso para no mencionar outras milhares de mortes semelhantes que no ocupam manchetes nem boletins de ocorrncia.  ESTAMOS ARMADOS E DESARMADOS at os dentes. Somos o pas em que mais se mata no mundo (64 mil homicdios em 2012, segundo a Organizao Mundial de Sade). A violncia  to cotidiana e gratuita que a discusso sobre liberar a posse de armas de fogo aos cidados soa irrelevante, j que sequer precisamos delas para violentar uns aos outros - embora ainda sejam preferncia nacional. Tem-se falado muito sobre uma epidemia de crimes com armas brancas com suposto foco no Rio de Janeiro. Nmeros da Secretaria Estadual de Segurana fluminense, porm, indicam que o cenrio  ilusrio - o Estado, inclusive,  onde menos se mata a facadas no Brasil [* Dados do Mapa da Violncia 2015, referentes a homicdios ocorridos em 2013.]. Nos primeiros quatro meses de 2015, houve 660 ocorrncias deste tipo contra 890 no mesmo perodo de 2014 (diminuio de 26%). As mortes se mantiveram estveis: 77 nos dois perodos. Seguindo no universo da pesquisa, o uso de objetos cortantes ou perfurantes se deu em 8,6% dos latrocnios (roubos seguidos de morte) e em 4,2% dos homicdios.  pouco comparado aos registros de crimes com armas de fogo, envolvidas em 59,9% dos latrocnios e 62,7% dos homicdios. Por outro lado, ter quase 20 mortes a facada todo ms em um nico Estado brasileiro no pode ser aceitvel. 
     Assim como no d mais para tolerar a liquidao da vida por aqui. Nem a noo generalizada, entre golpeadores e golpeados, de que matar por causa de um telefone, de uma bicicleta ou de um par romntico faz parte do negcio. E de que temos direito de revidar e de impor ao agressor a mesma violncia que nos vitima. Reagir assim  admitir negociar o quanto a vida vale. E nesse tipo de negociao, a do outro sempre vale menos que a minha, que vale menos que a do outro, sucessivamente. Depreciao aps depreciao, zeramos o valor da vida.
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3# SUPERNOVAS julho 2015

     3#1 FATOS
     3#2 COISAS

3#1 FATOS
Edio Karin Hueck

UMA LAJE PARA SALVAR O MUNDO
UM DOS MAIORES PROBLEMAS da urbanizao  a quantidade de terra que fica coberta por cimento - que, por sua vz, retm at 90% do calor do Sol, esquentando cidades e ambientes fechados. Agora, pela primeira vz, um grupo de cientistas criou um material para cobrir as construes que reflete quase 100% da energia solar e ainda deixa os ambientes 11 C mais frios do que outras coberturas refletoras. A liga, uma finssima folha de prata coberta por polisteres, devolve os raios solares diretamente para o espao e no aquece a atmosfera. E o melhor: os pesquisadores prometem que vai ser barato.

8 MILHES DE TONELADAS DE PLSTICO 
so jogadas nos oceanos ao ano.  como se descartssemos 16 sacolas de supermercado no mar a cada metro de costa.

TRABALHAR FORA DE CASA  BOM PARA OS FILHOS
Um novo estudo da Harvard Business School prova que ter uma me que trabalha fora de casa tem vantagens, ao contrrio do que diz o senso comum. A pesquisa, liderada pela professora Kathleen McGinn, aponta que filhas de mes que trabalham ganham salrios 23% mais altos e 33% delas ocupam cargos de superviso, contra apenas 25% das rebentas de mes que ficam em casa. Para os filhos de trabalhadoras, os efeitos so diferentes, mas ainda assim positivos: eles gastam mais tempo cuidando da casa e da famlia - uma mdia de 16 horas por semana, contra 8 horas do outro grupo. Os resultados liberam as mes que se sentem culpadas de voltar para o escritrio. "Filhas de mes que trabalham enxergam que  ok ir trabalhar, e no  ok passar o tempo todo limpando a casa. E filhos enxergam que no tem como manter o controle da vida pessoal e profissional, se todo mundo no trabalhar junto", disse McGinn em uma entrevista. 
Ana Lusa Fernandes

TREMEI, MARCIANOS
Um designer sueco bolou uma bandeira internacional para a Terra para quando conquistarmos outros planetas. A cor azul representa a gua em estado lquido, abundante por aqui, e os sete crculos que formam uma flor so a vida terrestre.

DESPEDIDA - DE UMA PESSOA E DE UMA ESPCIE 
Abduljaleel Alarbash - Estudante 
Abduljaleel era um estudante saudita de 22 anos que fazia trabalho voluntrio como segurana de uma mesquita. Ele suspeitou de um dos visitantes - um homem disfarado com um vu - e conseguiu afast-lo da mesquita. O homem-bomba, do ISIS, se explodiu e Abduljaleel morreu, mas os fiis foram salvos. 

Este morceguinho - Pipistrellus murrayi 
Este morcego de 4 g era incrivelmente abundante na ilha Christmas, na Austrlia, at o comeo dos anos 2000, mas o ltimo foi visto em 2009. A insero de novas espcies, como uma cobra-lobo, e o uso de inseticidas para matar a formiga-amarela-louca acabaram levando o Pipistrellus  extino. 


CUSPIDO E ESCARRADO
Todos os dias, os habitantes de Hong Kong descartam 16 mil toneladas de lixo. Assim, a ONC ambientalista HK Clean-Up resolveu levar a srio a luta contra a sujeira nas ruas por l. Comeou a recolher dejetos nas vias pblicas - bitucas, chicletes, camisinhas - e mand-los para um laboratrio. Com os resqucios de DNA encontrados neles, recriou os rostos das pessoas que jogaram lixo no cho. E espalhou suas caras pela cidade. KH
COMO SEU LIXO VAI IDENTIFICAR VOC 
1- O software consegue recriar com mais de 90% de preciso traos faciais, cor da pele e olhos, sexo e se a pessoa tem sardas ou no. 
2- Como o programa no consegue determinar a idade, o tipo de lixo encontrado ajuda a traar um perfil provvel. 
3- J que o laboratrio no prev corte de cabelo ou acessrios, os rostos so apenas aproximaes. A ideia  que isso baste para constranger os moradores. 


O Brasil se dividiu por causa de uma propaganda do Boticrio.
ENQUANTO ISSO... Por Ana Luisa Fernandes
* Duas ilhas vulcnicas surgiram entre a frica e a Pennsula Arbica: Sholan e Jadid, de i km de dimetro. 
* Pesquisadores criaram um antebrao de rato a partir de um molde e clulas do prprio animal. A descoberta  uma esperana para amputados. 
* Cientistas criaram um avio que se repara sozinho. Microesferas nas asas liberam um lquido que conserta rachaduras e furos. 
* Bilogos observaram na Etipia uma relao entre lobos e macacos da espcie gelada que  parecida com a domesticao de cachorros por humanos. 

Fontes KingAbdullah University of Science and Technology; Dr. Heral Ott, Massachusetts General Hospital; Duncan Wass, University of Bristol

COMPLICANDO O DESCOMPLICADO
Overengineering  o ato de inventar produtos muito complexos para atividades bem simples  e o Japo  lder na atividade. Veja aqui alguns exemplos inacreditveis. Ana Luisa Fernandes

Sharp SJP691MSL 
Para que serve: Geladeira que cria cubos de gelo cristalinos em vez de turvos. 
Por que  desnecessrio: Porque se voc realmente faz questo de ter cubos de gelos cristalinos no precisa gastar tanto dinheiro em uma geladeira. Voc pode ferver a gua antes de congel-la, por exemplo. 
Preo: R$ 4.037 

Noiseless Karaoke Mute Mie 2
Para que serve: Um microfone de karaok que parece um desentupidor: voc canta dentro da parte fechada e ningum ouve voc.
Por que  desnecessrio: Porque ningum compra um microfone de karaok se no for para cantar em alto e bom som. 
Preo: R$ 317

Coden Ear Scope 13,000 Standard 
Para que serve: Aparelho que limpa ouvidos com preciso. Ele possui cmera, luz e um limpador. 
Por que  desnecessrio: Porque no faz bem limpar os ouvidos: eles j cumprem essa funo sozinhos. 
Preo: R$ 329 

Auto MeeS
Para que serve: Minirrob que limpa telas de celulares e tablets.
Por que  desnecessrio: Porque qualquer camiseta faz o mesmo trabalho em metade do tempo. 
Preo: R$ 78

Digital Rice Paddle wi th Calories Calculator 
Para que serve: Colher digital que mede as calorias e o peso do arroz que voc coloca nela. 
Por que  desnecessrio: Uma colher de sopa cheia de arroz tem 32 calorias. Pronto, voc economizou R$ 137. 
Preo: R$ 137 


UM EVEREST DE COC
A montanha mais alta do mundo est com um problema (de saneamento) bsico. Mais de 4 mil alpinistas j a escalaram desde 1953 - so 700 a cada temporada, entre abril e maio - e no h nenhum banheiro por l. O resultado so toneladas de xixi e coc enterrados na neve. Autoridades nepalesas agora alertaram que tanto coc est comeando a causar doenas. Segundo o montanhista Victor Carvalho, do Clube Alpino Paulista, durante a escalada  comum que se recolha o lixo no-orgnico, e se enterrem (ou cubram com pedras) os dejetos orgnicos. Para o primeiro tipo de lixo, o governo agora imps a regra de que cada escalador retorne com 8 kg de resduos, a mdia gerada por escalada. Para o coc, no entanto, a melhor soluo ainda so sacos higinicos descartveis, que precisam ser carregados de volta. Nada muito agradvel. 
Rafael Gonzaga 


A VACA FOI PRA WEB
O paulista Danilo Leo foi eleito uma das cem pessoas mais criativas pela revista Fast Company. Ele  o criador do aplicativo BOVCONTROL, que ajuda os pecuaristas no controle de rebanhos. ALF 

De onde veio a ideia de criar o aplicativo? 
Nasci no interior de So Paulo, em Marlia. Minha famlia tem uma pequena fazenda, da qual meu pai sempre me incentivou a cuidar. Me envolvi muito cedo e intuitivamente com as tarefas, mas tambm sempre estava longe do rebanho, pois trabalhava na indstria de softwares. Ento senti necessidade de controlar a atividade a distncia. 

Como o BovControl funciona? 
O aplicativo coleta informaes, como peso, idade, cor, raa, nmero de cadastro, fotos. Eles so armazenados na nuvem para que o produtor acompanhe os animais em tempo real, mesmo longe. Os dados produzem relatrios e planilhas, e d para analisar diversas informaes, como qual vaca d mais leite ou qual ganha mais peso. O aplicativo tambm conversa com qualquer tecnologia que o produtor possuir. Por exemplo, se ele quiser implantar um brinco especfico com GPS e fizer o cadastro no aplicativo, o animal vai ser rastreado. 


NDICE
Empregadas domsticas
Por 7 horas de trabalho

R$ 130 So Paulo, Brasil
R$ 80 Salvador, Brasil
R$ 290 Berlim, Alemanha
R$ 315 Melbourne, Austrlia
R$ 45 Bogot, Colmbia
R$ 40 Mumbai, ndia
R$ 620 Manhattan, NY, EUA


PASES RELIGIOSOS SO MENOS INOVADORES
Pelo menos  o que diz um estudo da Universidade Princeton. Segundo a pesquisa, quanto mais a religio interferir nas decises polticas, mais hostil fica o ambiente para a cincia. Fica o recado para o nosso Congresso. KH
MUNDO - O estudo compara o nmero de patentes registradas por habitante com a quantidade de pessoas que se declaram religiosas. 
1- EUA  - Os EUA so exceo: so muito religiosos, mas se destacam nas patentes - apesar de queda no governo Bush. 
2- Isl - Segundo a pesquisa, os 46 maiores pases muulmanos do mundo produzem apenas 1,16% da literatura cientfica. 
3- Brasil - Com cerca de 90% da populao acreditando em Deus, temos menos patentes que Ira, Polnia ou Rssia. 


A ORCA QUE AFUNDOU
A cidade de Astoria, no oeste dos EUA, foi invadida por lees marinhos. Os animais, que costumavam vir no inverno, decidiram ficar por l graas aos oceanos aquecidos. O municpio tentou assustar os invasores com uma imensa orca inflvel. A engenhoca afundou trs vezes e os lees marinhos seguem comendo os peixes que alimentavam a cidade. Valeu, aquecimento global. 


O CONTROLE REMOTO HUMANO
Cientistas alemes apresentaram um aparelho que eles chamaram de "controle de navegao de pedestres". Com um smartphone e pequenos eletrodos grudados na perna, o usurio  levado por leves choques at o ponto de chegada. Nos testes com voluntrios, eles andaram sem mapas em parques, mesmo em meio a multides ou desviando de obstculos. Para o professor Florian Alt, autor do projeto, o equipamento pode ajudar cegos a caminhar, ou guiar turistas que no querem ficar olhando para mapas no celular. "No futuro, treinadores podero at orientar jogadores de fora do campo", diz Alt.
Marcos Ricardo dos Santos


VOC PAGA ESTE POLTICO [*"Projetos de lei que foram apresentados no plenrio no ltimo ms.]:
 Capito Augusto (dep. fed. PR-SP) pretende transformar o rodeio em patrimnio cultural imaterial do Brasil.
 Goulart (dep. fed. PSD-SP) quer liberar rojes e outros fogos de artifcio para membros de torcidas organizadas (mas no torcedores comuns).
 Alberto Fraga (dep. fed. DEM-DF) defende que policiais expulsos da corporao tenham direito a penso militar. 
Por Rodolfo Viana


3#2 COISAS
Edio Bruno Garattoni

O MONITOR HOLOGRFICO
Ele  to incrvel que parece fico cientfica. Mas  real. Finalmente conseguiram criar um display hologrfico. Graas a um truque. 
Texto Bruno Garattoni e Fernando Bad
ELE SE CHAMA HOLUS, vai custar US$ 950, e faz isso que voc est vendo: projeta imagens tridimensionais, hologrficas. O aparelho foi desenvolvido pela empresa canadense H+ e usa um truque bem esperto. A imagem  projetada num jogo de espelhos, que rebatem os raios de luz e geram a iluso de estar vendo um holograma.  uma verso mais sofisticada da tcnica usada para projetar msicos virtuais em shows (e adotada pela empresa japonesa Sega no fliperama Time Traveler). O Holus tem entrada HDMI, para conectar um tocador de Blu-ray, computador ou videogame, e promete converter contedo 2D em 3D. Mas provavelmente vai precisar de games e apps especiais, "hologrficos", para mostrar seu potencial - que parece bem impressionante. O aparelho reconhece gestos, ou seja, voc pode interagir com as coisas dentro do cubo mexendo as mos na frente dele. O lanamento est prometido para o comeo de 2016.


ILUMINA. E FAZ OUTRA COISA TAMBM
As caixas de som ficaram bem menores nas ltimas dcadas. Mas e se elas fossem... invisveis? Agora podem ser. Porque, alm de iluminar, a lmpada LED Bulb Speaker tambm  caixa de som: tem um alto-falante Bluetooth embutido ( s pare-la ao seu celular para ouvir msica). Uma tima soluo para alegrar a casa toda. Pena que ainda custe caro: US$ 200 cada lmpada. Mas a ideia  to boa que logo vo aparecer imitaes mais baratas, de outras marcas.


A PLACA SOLAR GIRASSOL
TODO MUNDO GOSTARIA de alimentar a prpria casa s com energia solar, mas nem sempre d. O painel Smartflower promete resolver isso com uma ttica inteligente: ele se mexe como uma planta, acompanhando o Sol. Graas a isso, capta 40% mais energia (segundo o fabricante, gera 330 kWh por ms, o suficiente para uma famlia de quatro pessoas). O preo ainda no foi divulgado.


VOC PASSOU FIO DENTAL HOJE? 
? MESMO? Pode admitir: passar fio dental  meio chato.  por isso que, segundo uma pesquisa feita nos EUA, metade das pessoas no passa. Com este aparelho, que se chama Philips AirFloss e custa US$ 110, fica bem mais fcil. Ele solta microjatos de ar que limpam os espaos entre os dentes - e deixa a boca tinindo em apenas 30 segundos. E sem machucar a gengiva. 


CANETA SEM PAPEL
Voc vive anotando as coisas - e perdendo os papis onde anotou? Vai gostar da caneta Phree. Ela digitaliza tudo o que voc escreve e salva na nuvem:  compatvel com o melhor aplicativo de anotaes, o Evernote. E funciona com papel normal (as outras canetas digitais exigem cadernos especiais). O produto, que vai custar US$ 150,  o resultado de uma bem-sucedida campanha de crowdfunding - arrecadou US$ 800 mil, oito vezes o valor de que precisava.


PROLAS DO STREAMING
Tesouros escondidos nos principais sites
NETFLIX - 50%. Filme. Adam acorda com dor nas costas, vai ao mdico e descobre que tem cncer. E, mesmo com a quimioterapia, sua chance de morrer  50%. Mas ele continua saindo, bebendo, xavecando, tentando manter a vida normal de um cara de 27 anos. E coisas legais vo acontecendo. 
YOUTUBE - In a Nutshell. Canal. Economia global, energia nuclear, poos de petrleo, vida fora da Terra, origem do Universo, guerras - e o que acontece no seu corpo quando voc pega gripe. As grandes questes do mundo explicadas de um jeito incrivelmente claro. E muito fofo tambm: em animaes superlegais.
YOUTUBE - On the Roofs. Canal. Dois russos invadem e escalam alguns dos prdios, pontes e estruturas mais altos e perigosos que existem - e filmam tudo. O momento mais incrvel  a subida clandestina ao topo do Shangai Tower, segundo edifcio mais alto do mundo, em plena construo. 
GLOBOSAT PLAY (PLAY.COM.BR) - 6o Dias na Amaznia. Srie. Uma garota e um cmera atravessam 2.700 km da nascente do rio Amazonas, no Peru, at o Amap. De barco, de bote, de jipe, por trilhas e cachoeiras, cruzando com animais, tribos - e as encrencas tpicas de uma viagem do tipo. 


, A COISA EST FEIA. ENTO LEIA ISTO
Crise. Pessimismo. Preconceito. Violncia. Intolerncia. Bombardeio de informao. Ansiedade, antidepressivos, calmantes. O mundo no anda fcil. Mas estes livros podem ajudar. 
O SER HUMANO  COMO UM BALDE FURADO. No adianta tentar encher com gua, ele sempre vai acabar vazando. Foi Plato quem disse isso - e ajuda a explicar por que, mesmo possuindo, consumindo, conquistando e fazendo cada vez mais coisas, a sociedade moderna parece cada vez mais aflita. Esta srie de livros, idealizada pelo filsofo suo Alain de Botton, usa as ideias de gigantes do pensamento (Pascal, Camus, Heidegger, Proust, Freud, Kafka e Schopenhauer, alm do prprio Plato) para decodificar a essncia da vida. E, a partir da, sugerir um novo jeito de encarar as coisas. O melhor (e mais oportuno) livro da srie  Como Lidar com a Adversidade. Comece por ele e, se gostar, leia os outros.

300
MIL PESSOAS, 60% de toda a populao local, foram mortas pelo Brasil na Guerra do Paraguai: o conflito mais sangrento em que nosso pas j se envolveu. Este documentrio explica por que matamos tanto, conta detalhes pouco conhecidos (muitos dos nossos soldados eram escravos) e mostra como foram as batalhas, com uma grandiosa - e violentssima - reconstituio. 
Guerra do Paraguai 
History Channel 
Dia 11/7, s 22h.

"Tentei expulsar aquele pensamento. Mas ele escapou, e se fixou na minha mente", CONTA O INGLS DAVID ADAM, que tem transtorno obsessivo-compulsivo. Neste livro, ele conta como o seu TOC comeou - e narra histrias incrveis de outras pessoas com comportamentos obsessivos. 
O Homem que No Conseguia Parar 
R$ 40 (R$ 28 em ebook)

I'M BACK, BABY. AOS 67
2029. A humanidade ainda est em guerra contra as mquinas, unidas na rede Skynet. A nica esperana  mandar algum de volta no tempo para tentar alterar o curso da histria. Mas isso cria uma realidade paralela bizarra, onde o Exterminador, Mr. Arnold Schwarzenegger himself, luta a favor dos humanos. Hora de ver se ele, hoje um senhor da terceira idade, ainda tem gs.
O Exterminador do Futuro: Gnesis
Estreia nos cinemas dia 2/7.

E AGORA, DAFT PUNK? 
LEMBRA DE "GET LUCKY", do Daft Punk? Baita msica. Mas, quando saiu, houve quem notasse algo estranho. Era uma verso melhorada de "Wildcat", da dupla americana Ratatat. Que agora, em seu novo disco, d o troco: faz um som 100% Daft Punk, s que turbinado. A primeira msica ("Cream on Chrome", j liberada) tambm ficou melhor que a original.
Ratatat: Magnifique
Lanamento dia 17/7
nas lojas iTunes e Google Play.
US$ 8

A HISTRIA COMPLETA DO UNIVERSO 
DO BIC BANG ao aparecimento da vida na Terra e o surgimento do homem - at sua busca, hoje e no futuro, por civilizaes extraterrestres. A histria de tudo, narrada de um jeito claro e gostoso de ler pelo fsico americano Neil deGrasse Tyson, num livro que j pode ser considerado um clssico.
Origens R$ 49,90

SCI-FI DA LUTA DE CLASSES 
UMA CATSTROFE acabou com a vida na Terra. S sobraram as pessoas que esto a bordo de um trem: o Snowpiercer - quebragelo -, que fica rodando sem parar. Dentro dele, logo se forma uma sociedade: a turma dos vages da frente manda, e o povaru do fundo se lasca. At que a revoluo comea. Fico cientfica com roteiro francs, diretor coreano, um pouco de poltica e bastante ao (se voc gostou de Distrito 9, vai adorar este filme). 
O Expresso do Amanh (Snowpiercer] 
Estreia nos cinemas dia 30/7. 


VOC DECIDE
Os projetos mais interessantes (e surpreendentes) do mundo do crowdfunding

Com as mos na realidade virtual
kickstarter.com
Projeto: Gloveone
O que : Uma luva que permite tocar objetos virtuais. Ela foi projetada para ser usada junto com culos de realidade virtual (como o Oculus Rift, do Facebook), e simula a textura, a temperatura e at o peso dos objetos - num game de basquete, por exemplo, voc teria a sensao de estar segurando a bola.
Meta US$ 150 mil

O Apple TV da arte
kickstarter. com
Projeto: Digital Art Device
O que : Um aparelhinho que transforma a sua TV em galeria de arte. Basta conect-lo e ele faz o resto - baixa e mostra obras de arte e exposies de museus e galerias pelo mundo. O acervo  atualizado automaticamente.
Meta 10 mil euros

SABRE DE LUZ DE VERDADE 
kickstarter.com 
Projeto: Adaptive Saber 
O que : Uma coleo com os sabres de luz da srie de filmes Star Wars. So dez modelos de cabo e vrias opes de cor (a "lmina" do sabre  uma lmpada de LED). O sabre detecta movimentos e faz o barulho tpico - uoon - quando  esgrimido. 
Meta US$ 100 mil 


CELULAR BOM E BARATO
No precisa mais gastar muito para ter um smartphone bacana. Os preos caram, e hoje existem timas opes na faixa de R$ 600 a R$ 700. Eles tm tela boa, duas cmeras, processador rpido - e, em vrios casos, at internet 4G.

COMO TESTAMOS - Para medir a bateria, usamos o aplicativo PC Mark, que executa uma sequncia de tarefas do dia a dia, como navegar, editar fotos e rodar vdeos, com a tela a 50% de brilho - um teste exigente. Comparamos as telas olhando as mesmas imagens, ao mesmo tempo, em todos os smartphones. Para testar as cmeras, fotografamos trs cenas: uma bem iluminada, uma na penumbra e outra bem colorida, e comparamos as fotos (que voc pode baixar em bit.ly/iG8fwMQ).

Xperia M2 (Sony)
Disparado a melhor cmera - porque usa o sensor Sony Exmor RS, o mesmo do iPhone 6. A tela tambm  tima, grande e muito brilhante. E a internet  4G. A Sony personalizou o Android (4.4) com mais de 20 apps e itens prprios, que talvez voc nem use. Mas eles podem ser desinstalados. Bom celular para quem prioriza as fotos.
R$ 759
sonystyle.com.br
RESOLUO DA TELA: 229 DPI (4,8)
MEMRIA LIVRE: 4,39 GB
BATERIA: 8H57

LG Leon 4G 
nico celular em que o boto liga-desliga e o volume no ficam na lateral: ficam atrs. Leva um tempo at acostumar. A internet  4G e o Android  o 5. A memria  a menor (embora possa, como nos demais aparelhos, ser aumentada com um carto SD). A cmera  ok, no mesmo nvel de Motorola e Samsung.
R$ 679
lge.com.br
RESOLUO DA TELA: 218 DPI (4,5)
MEMRIA LIVRE: 3,05 GB
BATERIA: 8H07

Galaxy Win 2 Duos
 bem acabado, com bordas que imitam metal, e por isso aparenta ser mais caro do que os outros. J a tela, a cmera e a verso do Android (4.4) no tm nada de excepcional. Os pontos fortes so a internet, 4G, e a TV, que pega em Full HD (no em baixa resoluo, como no Moto E).
R$ 779
samsung.com.br
RESOLUO DA TELA: 207 DPI (4,5)
MEMRIA LIVRE: 5 GB
BATERIA: 7H25

Moto E (escolha da SUPER)
A Motorola tem feito fama pelos celulares baratos e bons, e seu novo modelo est  altura. Tem internet 4G, TV digital, muita memria (mais que o dobro dos outros), a melhor bateria. E j vem com Android 5. Tirando a cmera, apenas aceitvel,  quase perfeito. Nem parece um celular low-cost.
R$ 599
motorola.com.br
RESOLUO DA TELA: 245 DPI (4,5)
MEMRIA LIVRE: 11,4 GB
BATERIA: 9H43

ZenFone 5
Tem processador Intel Atom de 1,6 GHz, bem mais potente que os outros (que chegam a 1,2 GHz), e tela gigante. Mas isso drena a bateria, que teve a menor autonomia nos nossos testes - embora seja suficiente para um dia de uso moderado. O grande porm est na internet, que no  4G. 
R$ 699
asus.com/br 
RESOLUO DA TELA: 294 DPI (5)
MEMRIA LIVRE: 4,7 GB
BATERIA: 4H37

Lumia 730
Muito bonito e bem construdo, e nico com tela de OLED (bem melhor que os LCDs). Realmente chama a ateno. Inclusive pelo sistema, que no  Android:  o Windows Phone. Ele  rpido, elegante e tem os apps cruciais (Facebook, Insta etc.), mas exige um reaprendizado considervel. E a internet no  4G.
R$ 566
microsoft.com.br
RESOLUO DA TELA: 316 DPI (4,7)
MEMRIA LIVRE: 3,9 GB
BATERIA: N/D [*"Como o aplicativo PC Mark no est disponvel para Windows Phone, no foi possvel testar a bateria do Lumia 730 em condies iguais s dos demais smartphones. Num teste informal, menos rigoroso (e no-cientfico), a bateria do aparelho se mostrou suficiente para um dia de uso moderado.]


HACK
Como fazer a sua internet durar mais.
As operadoras de celular limitam a quantidade de dados que voc pode usar a cada dia ou ms. Mas h como contornar isso.
1. BAIXE E INSTALE O aplicativo Opera Max, para Android.  grtis.
2. ABRA O APP e clique em "Conectar". Pronto. Use o seu celular normalmente.
3. o OPERA MAX far a sua franquia de dados durar at 50% a mais. O truque  que ele intercepta, e comprime, os dados dos aplicativos (navegador, Instagram etc.) antes que eles sejam enviados para o seu smartphone.
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4# REPORTAGENS julho 2015

     4#1 CAPA  COMO SILENCIAMOS O ESTUPRO
     4#2 iCAR  DRIVE DIFFERENT  MA MOTORS
     4#3 FUTEBOL  UMA BREVE HISTRIA DA FIFA  FIFA. QUEM VAI LEVAR ESTA TAA?
     4#4 LUGAR  O FEIRO DAS ARMAS
     4#5 ENTREVISTA  ELE EST NO MEIO DE NS
     4#6 ENTRETENIMENTO  POR DENTRO DO NETFLIX
     4#7 ENTRETENIMENTO - E POR TRS DO POPCORN TIME

4#1 CAPA  COMO SILENCIAMOS O ESTUPRO
Todo mundo concorda que estupro  um dos piores crimes que existem. Ainda assim, 99% dos agressores sexuais esto soltos - e eles no so quem voc imagina. Culpa de uma tradio milenar: o nosso hbito de abafar a violncia sexual a qualquer custo. Entenda aqui por que  to difcil falar de estupro.
Texto Karin Hueck
Com reportagem de Nana Queiroz, Laura Folgueira e Priscila Bellini

     LUCI ERA UMA DONZELA de 13 anos que, no sculo X, vivia em um importante vilarejo com seus pais. Certo dia de vero, ela saiu para ir  feira com uma amiga quando sentiu uma vontade enorme de ir ao banheiro. Sem ter aonde ir, entrou no primeiro casebre do caminho e resolveu fazer xixi por l mesmo. Foi quando um homem de 35 anos a encontrou e decidiu que a tomaria  fora. O rapaz a prendeu dentro da cabana e a violentou: foi tanta brutalidade que Luci ficou toda ensanguentada e com as vestes rasgadas. Quando a menina chegou em casa, seu pai se encheu de desgosto - no podia acreditar que a filha no era mais virgem. Ainda assim, a famlia decidiu buscar justia e foi falar com o mandatrio local para mandar prender o criminoso. O oficial logo encontrou o acusado que, depois de muito tempo, acabou confessando o crime. Assim, de acordo com a lei da poca, o oficial apresentou duas opes para a famlia: ou o homem ia preso ou assumia a menina e se casava com Luci para resgatar sua "honra". Como o pai da menina no queria mais saber daquela filha impura, mandou ela se casar com seu estuprador. Foi o que aconteceu. No dia seguinte, Luci se mudou para a cabana onde foi violentada, onde passou 11 anos ao lado de seu monstruoso marido. Ele a engravidou por cinco vezes e bateu nela todos os dias enquanto permaneceram casados. 
     A histria seria apenas mais um terrvel conto medieval, se eu no tivesse esquecido um "X" na data l em cima. O caso de Luci no aconteceu no sculo X, mas no sculo XX - em 1982, para ser exato. O importante vilarejo era a  cidade de Guarulhos, em So Paulo, e Luci  Lucineide Souza Santos, uma cabeleireira de 46 anos que, hoje, est separada de seu estuprador. (E, se voc ficou na dvida: sim, at 2002 existia na lei brasileira a possibilidade de o estuprador no cumprir pena caso ele se casasse com sua vtima.) 
     Segundo o Anurio do Frum Brasileiro de Segurana Pblica, todos os anos cerca de 50 mil pessoas so estupradas no Brasil. Esses so os nmeros oficiais, obtidos a partir da papelada formal. Mas eles no correspondem  realidade. O estupro  um dos crimes mais subnotificados que existem e o Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada estima que os dados oficiais representem apenas 10% dos casos ocorridos. Ou seja, o verdadeiro nmero de pessoas estupradas todos os anos no Brasil  mais de meio milho. Nos EUA, onde existem dados longitudinais, de acordo com o Center for Disease Control and Prevention, uma em cinco mulheres vai ser estuprada ao longo da vida. 
     Os casos registrados so baixos porque existe um comportamento persistente que cerca o estupro: o silncio. Vtimas no denunciam seus agressores, policiais no investigam as acusaes, famlias ignoram os pedidos de ajuda, instituies no entregam seus criminosos - esses mecanismos invisveis fazem com que 90% da violncia sexual jamais seja conhecida por ningum. E isso, sim,  um crime ainda maior do que a soma de cada caso. 
     Apesar de entendermos o estupro como um dos piores crimes que podem acontecer a algum - segundo pesquisas sobre percepo de crueldade, ele s perde para o assassinato -, somos estranhamente incrdulos para acreditar que ele realmente acontece. O estupro  o nico crime no qual a vtima  julgada junto com o criminoso. Imagine que roubaram o seu celular e voc decide fazer um B.O. Agora imagine que o delegado que pegou o seu caso resolve perguntar onde voc foi assaltado, que horas eram e se voc era conhecido por trocar de aparelho o tempo todo. Depois ele pergunta se voc tem certeza de que o assalto realmente aconteceu ou se voc no deu o celular ao bandido por vontade prpria. Se voc ento explica que o roubo foi de madrugada e depois de voc ter tomado umas cervejas, o delegado decide - por conta prpria - que no houve crime algum: voc estava na rua e bbado, quem pode garantir que voc est falando a verdade? Ou ento, pior, quem disse que voc no queria ter sido assaltado? 
     Isso acontece com quem foi estuprado o tempo todo. Mulheres relatam como so recebidas com desconfiana quando resolvem contar suas histrias para algum. Pessoas perguntam que roupa ela vestia, onde ela estava, que horas eram, se estava bbada, se j no havia ficado com o estuprador alguma vez, se deu a entender que queria fazer sexo e at se j teve muitos namorados antes. E essas perguntas podem vir de qualquer um. Foi o que aconteceu com a menina Maria [*Nomes alterados a pedido das vtimas.], por exemplo, estuprada pelo av aos 14 anos. Quando ela resolveu pedir ajuda  av, ouviu que a culpa havia sido dela. "Voc saiu do banho de toalha na frente do seu av, que no sabe controlar os instintos." O av seguiu normalmente a vida, e Maria viveu com a culpa de quase ter desestruturado toda a sua famlia, como insinuou a av. Comentrios assim surgem de amigos, familiares, policiais, mdicos, advogados - e at de juzes. Todas as instncias trabalham para abafar o crime e jogar o assunto para baixo do tapete. Todas mesmo. 

O estupro do poder 
     O menino de 9 anos comeou a chorar quando contou o que havia acontecido com ele. Alguns dias antes, enquanto procurava por comida junto com um amiguinho, encontrou dois adultos que falaram que tinham alguns alimentos sobrando e que poderiam dividir um pouco com eles - em troca de um pequeno favor. O favor? Que os meninos fizessem sexo oral nos adultos. Sem comer h dias, as crianas acabaram cedendo. Depois de ganhar a comida, traumatizados, os pequenos no conseguiram voltar para casa e acabaram abandonando seus lares. A histria acima aconteceu em 2014, os meninos de 9 anos eram moradores de um campo de refugiados na Repblica Centro-Africana e os adultos que os extorquiram por comida eram soldados franceses de uma fora de paz da ONU. E a histria no para por a: segundo um relatrio interno da prpria Organizao, outras 11 crianas no pas africano foram estupradas analmente ou foradas a fazer sexo oral em membros da fora de paz, tudo em troca de comida. 
     Quase que pior que as histrias de estupro foi o que a ONU fez com o relatrio que continha essas denncias. O documento foi encaminhado de funcionrio a funcionrio a funcionrio - sem que ningum tomasse nenhuma providncia. Repetidamente, o caso foi sendo abafado. Foi apenas quando a papelada caiu nas mos de Anders Kompass, um oficial de direitos humanos da ONU na Sua, que algum agiu. Kompass vazou as informaes para o governo francs, que finalmente abriu uma investigao na Repblica Centro-Africana. A, sim, a ONU se viu obrigada a tomar uma atitude: afastou Kompass do cargo. 
      difcil achar no mundo uma grande instituio que no tenha varrido para debaixo do tapete algum caso de estupro. Exrcitos, empresas, famlias, universidades e igrejas acobertam estupros rotineiramente. A Igreja Catlica foi apenas a mais famosa organizao religiosa a fazer isso quando bispos e padres foram acusados de abusar sexualmente de crianas no comeo dos anos 2000. Durante muito tempo o Vaticano fingiu que no sabia de nada - e at o papa Bento 16 foi acusado de olhar para o outro lado nos anos em que liderou um departamento que analisava abusos dentro da Igreja. O mesmo aconteceu com os Testemunhas de Jeov na Inglaterra, onde o pastor Mark Sewell foi condenado por abusar de mulheres e crianas ao longo de anos. E acontece tambm com igrejas evanglicas aqui no Brasil, onde pastores de diversos Estados j foram acusados de abusar de meninas durante supostos "tratamentos espirituais". 
     No so s as igrejas que adotam essa postura obscurantista. Nos ltimos meses, o foco dos escndalos sexuais tem sido as universidades, brasileiras e gringas, que mal sabem onde enfiar a cabea diante de tantas alunas contando que foram violentadas dentro das faculdades - mas j vamos chegar l. 
     Outra categoria muito eficiente em abafar casos de estupro  a figura do "homem bem-sucedido". Basta ser uma personalidade respeitada  que dificilmente a denncia de violncia sexual vai colar. Peguemos o caso de Dominique Strauss-Kahn, o diretor do FMI, que foi acusado por uma camareira de hotel de ter enfiado o pnis em sua boca, arrancado sua roupa e tentado penetr-la. Apesar de evidncias de smen no uniforme da mulher, Strauss-Kahn negou a violncia. Logo, o caso contra ele enfraqueceu e a queixa foi retirada por "falta de credibilidade da acusadora": decidiram que ela havia mudado demais a sua histria e que, graas a um passado obscuro em seu pas natal, a Guin, ela no era de confiana. Strauss-Kahn acabou renunciando ao cargo no FMI, mas no foi condenado. 
     Diversas outras figuras famosas tambm se viram envolvidas em acusaes de violncia sexual, como os atores Bill Cosby e Arnold Schwarzenegger, os atletas Mike Tyson e Kobe Bryant, e o diretor Woody Allen. O argumento contra pessoas que denunciam celebridades  sempre o mesmo: so indivduos interesseiros, loucos por fama e dinheiro, que merecem ser demonizados. (A moa que acusou Kobe Bryant, por exemplo, recebeu 70 ameaas de morte.) Pode at ser que todas as mulheres que acusam figures realmente estejam mentindo (embora pesquisas indiquem que as denncias falsas de estupro mal cheguem a 8%). Mas tambm pode ser que no. Na dvida, as punidas - por terem sua credibilidade questionada e pela falta de justia - acabam sendo as vtimas mesmo. 
     Quem acoberta grandes instituies usa sempre o mesmo raciocnio: "no podemos manchar a imagem de .... [insira aqui a sua entidade favorita] pela denncia de uma msera... [insira aqui seu xingamento favorito]". Quando finalmente algumas acusaes de pedofilia na Igreja Catlica foram confirmadas, no restou ao papa Bento 16 outra opo a no ser admitir que a prioridade do Vaticano havia sido "uma preocupao equivocada com a reputao da Igreja e a conteno de escndalos". A lgica  perversa: comparam-se anos e anos de fama e respeitabilidade de uma abstrata entidade com a dignidade de uma pessoa particular. No  de se estranhar que a pessoinha acabe levando a pior.  

Perguntar ofende 
     No  fcil denunciar um estupro.  preciso ir  delegacia e prestar depoimento para funcionrios que nem sempre sabem lidar com vtimas de violncia sexual (no h nenhum tipo de treinamento especial para isso aqui no Brasil) e que podem, sim, fazer as perguntas e insinuaes que nosso delegado fictcio l atrs fez. Se quiser que o caso tenha continuidade no processo jurdico, a vtima ter de ir ao IML fazer o exame mdico (consultas feitas em postos de sade ou mdicos particulares no tm validade legal). O exame  constrangedor: o mdico legista examina o corpo inteiro da mulher em busca de fibras ou pelos que possam incriminar algum, alm de vasculhar vagina, nus e perneo por sinais de lacerao, feridas ou esperma A mulher  apalpada, penetrada por instrumentos e interrogada sobre detalhes do crime, apenas horas depois do ocorrido. 
     Em seguida, a agredida ter de torcer para que seu caso seja encaminhado para os tribunais: quem decide isso so promotores e juzes, e a maioria deles prefere dar continuidade apenas aos casos que tm maior chance de serem provados nas cortes. Isso quer dizer que, se no houver sinais de esperma, ou se a vtima no tiver sido ameaada por arma de fogo ou se ela no apresentar machucados porque preferiu ficar imvel e no apanhar do estuprador, as provas ficam mais frgeis. Quem poder garantir que a relao foi diante de ameaa, afinal? Se a mulher conhecer o criminoso, ento, as chances de seu caso ser levado  frente caem drasticamente. Primeiro, pelo medo de retaliao: muitas preferem nem fazer a queixa para no serem perseguidas pelos seus agressores. E, segundo, porque  quase impossvel provar se houve ou no consentimento. Se a vtima chegar  delegacia dizendo que foi estuprada por um namorado, marido, ficante ou amigo,  quase certeiro que seu caso no v para frente. 
     Mesmo se for parar no tribunal, a acusao corre o risco de se voltar contra a mulher, como j vimos. "Os advogados podem usar qualquer tipo de argumento para invalidar a vtima. Geralmente so argumentos moralistas - e que funcionam", diz Ana Paula Meirelles Lewin, coordenadora do Ncleo de Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria Pblica do Estado de So Paulo. No   toa, ento, que 90% das mulheres desistam de denunciar o crime: sabe-se l o que advogados e procuradores vo inventar sobre ela. O estupro acaba silenciado pela vergonha, uma arma eficientssima. E vergonha  a palavra-chave nesses casos. "O estupro  um crime extremamente ntimo, uma violao profunda, como pouqussimas outras coisas so. Se as pessoas que lidam com esses casos - mdicos, advogados, policiais - no tiverem respeito por essa violao, elas no vo conseguir ajudar as mulheres", diz o mdico Jefferson Drezett, que atende vtimas de violncia sexual no hospital Prola Byington, em So Paulo. 

Meu malvado favorito 
     Fazia uma tarde ensolarada de maio quando quatro adolescentes resolveram sair de casa para tirar umas fotos panormicas de sua cidadezinha natal. Mas elas deram azar: quando chegaram ao alto do morro, encontraram cinco dos piores criminosos da cidade, completamente drogados. Rendidas com uma arma, elas foram amarradas a uma rvore com suas prprias roupas ntimas. O que seguiu foram horas de espancamento, esfaqueamento e estupro coletivo: uma delas ficou desfigurada de tanto apanhar, a outra teve os mamilos arrancados. Quando se cansaram dos horrores, os rapazes jogaram as meninas de um barranco de 8 metros e, quando viram que elas no haviam morrido ainda, resolveram apedrej-las. Uma das vtimas, Danielly Feitosa, acabou morrendo 11 dias depois. As outras seguem feridas. Dificilmente voltaro  a ter uma vida normal. 
     O que aconteceu no ltimo ms em Castelo do Piau, a 180 km de Teresina, - um dos mais assustadores casos de estupro do noticirio recente -  o tipo de crime que aterroriza o imaginrio das pessoas.  o tipo de crime tambm que costuma receber mais ateno: meninas muito novas atacadas por desconhecidos armados obviamente muito cruis. So casos horrveis, que todo mundo condena com veemncia: os ataques ganham destaque nos jornais, delegados e juzes ficam indignados e especialmente empenhados em punir os criminosos, que, quando chegam  cadeia, precisam at mesmo ser afastados dos outros presos para no serem mortos. A punio  exemplar. Mas, ao contrrio do que parece, esse tipo de estupro  tambm a minoria dos casos. 
     Primeiro, pelo desenrolar no sistema de justia. No Brasil no h estimativas exatas, mas nos EUA apenas 0,2% a 2,8% dos casos de estupro terminam com condenaes. Graas aos mecanismos que j vimos - a vergonha das vtimas, os procedimentos burocrticos lentos e punitivos para a mulher, o medo de ser julgada e a humilhao nas cortes -, isso quer dizer que 99% dos homens que estupram seguem tranquilamente com suas vidas, sem nenhuma consequncia. D para imaginar que as estatsticas sejam mais desanimadoras aqui no Brasil. 
     O crime de Castelo tambm foge  regra porque na maior parte os casos no so to extremos: os criminosos no so to maldosos, as vtimas no so to indefesas, a violncia  mais sutil. De fato, existe um mito de que estupros apenas acontecem de noite, em vielas escuras, por parte de malfeitores  armados e encapuzados que atacam donzelas virginais. A verdade no  bem assim. Provavelmente o dado mais triste sobre estupros no Brasil diz respeito ao perfil das vtimas: segundo o Ministrio da Sade, 70% das estupradas so crianas e adolescentes de at 17 anos (d umas 350 mil pessoas ao ano, uma Zurique inteira) e a maior parte delas foi violentada dentro de casa por pessoas de confiana, como padrastos ou amigos da famlia. 
     Mas, mesmo entre adultos, o mito do estuprador maligno desconhecido no passa disso: mito. Na vida real, boa parte dos casos de violncia sexual acontece dentro de casas e casamentos, depois de festas ou encontros, no meio de relaes sexuais que comearam consensuais, entre pessoas que j se conheciam e com agressores que nem de longe tm o perfil de "estupradores". No Brasil, por exemplo, entre 10% a 14% de todas as mulheres vo sofrer violncia sexual por parte de seus parceiros.  o caso de Lucineide, do comeo da reportagem. E de Emma, Allison e Kelsey, dos EUA. 
     Emma Sulkowicz estava no primeiro dia de seu segundo ano de faculdade na Universidade de Columbia, EUA, quando encontrou Paul, um ex-ficante, em uma festa. Os dois conversaram e comearam a se beijar, e o encontro acabou indo parar no quarto dela. O sexo estava consensual at que, a certa altura da relao, Paul resolveu segurar suas pernas com fora, apertar seu pescoo e penetr-la analmente - tudo enquanto Emma dizia "no, para!". J Allison Huguet conhecia seu estuprador, Beau, desde criancinha - na verdade, eram to amigos que ela o chamava de irmo. Em 2010, ambos resolveram ir a uma festa na casa de um conhecido e encheram a cara. Tanto que Allison achou melhor dormir por l mesmo em vez de voltar de carro. Ela capotou sozinha no sof, apenas para acordar duas horas depois com as calas e a calcinha na altura dos ps e seu melhor amigo gemendo por cima dela - ele estava fazendo sexo com ela desacordada. Aterrorizada, ela fingiu que estava dormindo. O que aconteceu com Kelsey Belnap foi ainda pior. Ela estudava na Universidade de Montana quando resolveu sair com uma amiga. As duas foram at o apartamento do namorado da amiga, onde estavam quatro rapazes do time de futebol da faculdade. Todos comearam a beber e os rapazes desafiaram as meninas a ver quem tomava mais doses de destilados. Kelsey deve ter virado uns oito copos antes de capotar em um dos quartos. Quando ela voltou a si, percebeu que um dos meninos estava enfiando o pnis ereto em sua boca. A menina tentou se desvencilhar, mas no conseguiu. Nas prximas horas, enquanto acordava e voltava a ficar inconsciente, todos os quatro rapazes se revezaram para penetr-la. Ela s ficou sabendo o que aconteceu j no hospital, quando uma enfermeira a examinou. 
     Dos trs crimes, s o de Allison terminou com o estuprador na cadeia - e isso apenas porque ela conseguiu gravar um telefonema no qual ele confessava o crime. Nos outros dois, a credibilidade das moas foi atacada sem parar depois que elas fizeram a denncia e o sexo foi considerado consensual - inclusive o de Kelsey: os policiais acreditaram que uma menina inconsciente teria condies de dar consentimento para quatro homens diferentes fazerem sexo com ela. 
     Os casos acima so americanos porque, por l, o debate sobre violncia sexual nos campi universitrios anda aquecido e meninas do pas inteiro esto vindo a pblico para contar suas histrias. Governos e instituies esto batendo cabea para tentar conter o que  chamado de uma "nova onda de estupro": pesquisas indicam que 20% das universitrias foram estupradas em suas vidas, e 84% delas por algum que elas conheciam. "As universidades escondem os crimes porque no h consequncias se elas fazem algo errado", opina Shelby Cuomo, pesquisadora de violncia sexual universitria da Universidade George Washington. "Uma investigao concluiu que at mesmo a escola de direito de Harvard no cumpriu todas as exigncias da lei na hora de investigar um caso de estupro. Mesmo assim, a escola no foi punida." 
     Por aqui, as denncias tambm esto comeando. As mais famosas envolvem casos de violncia sexual na USP, como o da estudante de veterinria que dormiu em uma festa de repblica e acordou com um colega estuprando-a por trs e o da caloura de medicina que foi violentada por um funcionrio da faculdade durante uma festa em 2011.  Quando as meninas procuraram ajuda dentro do campus, ouviram de alunos, assistentes sociais e centros acadmicos que seria melhor no fazer as denncias: era melhor no manchar a faculdade. Felizmente, o conselho no prevaleceu. As ocorrncias foram tantas que, a certa altura a USP no conseguiu mais ignorar as denncias. O caso acabou virando at uma CPI e causou a renncia de Paulo Saldiva, o professor que estava coordenando as investigaes. "A faculdade se comportou mal e ficou na defensiva sobre as denncias. H uma crise de conduta e de valores", disse ele na sada. O relatrio final da CPI incluiu 112 estupros dentro da universidade. Ainda assim, o nmero est longe da verdade: a aluna de geografia Aline*, por exemplo, que contou  SUPER como foi estuprada em uma festa da Faculdade de Arquitetura, no relatou seu caso. Ela tinha certeza de que no seria ouvida.  exatamente essa falta de confiana nas instituies que refora o silncio. 

O dilema do pegador 
     A "nova onda de estupro", porm, no  novidade. Casos como os acima sempre aconteceram, especialmente em ambientes que valorizam a pegao regada a muito lcool - basta conversar com alguma conhecida sua que ela vai saber contar alguma histria parecida. Meninas muito bbadas para consentir ou rapazes que insistem em sexo mesmo depois de a moa dizer que no est a fim existem desde que o mundo  mundo. Antigamente, atos assim eram descartados como "sexo ruim" ou "uma noite para esquecer" ou "ressaca moral". A diferena  que agora as meninas esto sabendo dar nome  violncia que viveram: estupro. "Antes, muitos dos casos apareciam como 'ele forou a barra', 'eu no queria, mas acabou acontecendo', ou algo que comea consensual e depois fica violento, e a menina no consegue parar o rapaz. Agora, as meninas esto percebendo esses casos como uma violncia, o que  uma grande mudana de perspectiva", diz Helosa Buarque de Almeida, professora de antropologia da USP, que montou um grupo de apoio para vtimas de violncia sexual no campus. 
      muito importante no descreditar esse tipo de estupro entre conhecidos como menos grave do que outros  como  j fizeram figuras famosas, como o bilogo Richard Dawkins, da entrevista na pg. 56. Ser obrigada a fazer sexo  fora, mesmo que seja com um conhecido,  traumtico e traz consequncias para o resto da vida afetiva e sexual da vtima. 
     Pesquisas tambm mostram que h um comportamento predatrio entre os universitrios acusados de violncia sexual. De acordo com David Lisak, psiclogo da Universidade de Duke e um dos maiores especialistas em violncia sexual entre conhecidos, apenas uma pequena minoria de rapazes  responsvel pela vasta maioria de ocorrncias de estupro entre universitrios - entre 90% e 95% dos casos so cometidos por algum que j estuprou antes. E esses rapazes cometem os atos repetida e conscientemente. Lisak entrevistou dezenas de rapazes em universidades e pediu para que eles descrevessem como costumam seduzir as meninas, sempre tomando o cuidado de no cham-los de estupradores. O relato de um deles, que ele apelidou de Frank,  assustador: "A gente sempre fica de olho nas meninas mais gatas. As mais fceis so as calouras porque elas no sabem beber ainda, a a gente convida elas para a festa e serve qualquer bebida muito doce e cheia de lcool. Tem que ter talento pra isso, escolher as gatinhas j durante e semana e jogar o papo. A quando elas estiverem muito bbadas, eu dou o bote. Levo prum quarto e tento tirar a roupa Elas reagem, dizem que no querem, mas eu insisto e uma hora elas acabam capotando mesmo. A eu como elas." Qualquer semelhana com conversas de vestirio no  coincidncia. 
     O problema a est, claro, no que se espera de um rapaz jovem. Muitos deles, ao forar a barra ou fazer sexo com uma moa bbada demais para saber o que est fazendo, no tm noo de que esto cometendo um crime grave e impondo um grande trauma s meninas. Instigados pela cultura (universitria e generalizada) de pegar o maior nmero de mulheres possvel e no perder nenhuma chance de fazer sexo, acabam ignorando consentimentos no dados ou resistncias. A soluo est,  claro, em mudar essa cultura. No cobrar de meninos que sejam pegadores. Nunca culpar uma menina pelo que aconteceu com ela. Entender que sexo s vale a pena quando os dois esto a fim. E que 'no' sempre - sempre, sempre - quer dizer 'no'. 

POR QUE O SILNCIO VENCE:
78% dos brasileiros acham que o que acontece entre um casal em casa no interessa aos outros.
63% pensam que casos de violncia dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da famlia.

E COMO A CULPA CAI NO COLO DELAS:
59% dos brasileiros concordam que existe mulher para casar e mulher para a cama.
58% acreditam que, se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros.

Fonte: IPEA

TUDO IGUAL
A maneira como leis e culturas lidam com o estupro mudou pouqussimo nos ltimos 4 mil anos.

O CDIGO DE HAMURABI  Um dos primeiros cdigos de leis conhecidos, de 4 mil anos, j falava em estupro. A peculiaridade  que, no caso de uma virgem, o ato era considerado um crime contra a propriedade  do pai dela. J as mulheres casadas eram executadas junto com seus estupradores, pois tinham cometido adultrio.
ESTUPRO BBLICO  E O DO BRASIL  O Velho Testamento deixa claro: estuprar uma virgem s era crime se o homem no se casava com ela depois. Assim como no Brasil at 2002  at essa data, estupradores podiam escapar da priso caso se casassem com suas vtimas.
ROMA ANTIGA E GAME OF THRONES - Em Roma, ao final de um casamento, o casal passava por um pequeno ritual: a mulher fingia ter muito medo e se agarrava  me, enquanto os amigos do noivo a arrastavam  fora at os aposentos do marido.  um ritual que lembra a poca em que mulheres eram sequestradas por invasores - e que George R. R. Martin reproduz em Game of Thrones. 

NOS EUA:
20% das universitrias foram estupradas [Desde os 14 anos. Mulheres que responderam sim  pergunta se j foram foradas a fazer sexo. Pesquisa do National Institute of Mental Health.].
84% por algum que elas conheciam.
57% por ficantes ou namorados.
Mas... 73% no achavam que era estupro, apesar de sentir que tinham sofrido um crime.

DICAS MEDIEVAIS - E DA MSICA POP 
Na Idade Mdia, consentimento no era premissa para o sexo. O bispo de stia, Itlia, escreveu: "As mulheres sempre esto prontas para o sexo e no precisam de preparao". Outro documento do sculo 13 recomendava: "Levante o vestido dela com uma mo e coloque a outra sobre seu sexo. Deixe que ela grite e faa o que quiser com ela". Parecido com a msica Blurred Lines, de Robin Thicke, na qual o cantor tambm no pergunta o que a moca quer: "Eu sei que voc quer, eu sei que voc quer, do jeito que me agarra, deve querer fazer sacanagem". 

ENTRE UNIVERSITRIOS:
4% dos rapazes admitem que j obrigaram algum a fazer sexo com eles.
Desses, 63% j fizeram isso com mais de uma mulher (a mdia  seis vtimas).
83% deles tm o hbito de embebedar as meninas antes do sexo.
92% conheciam as mocas que estupraram.

NO BRINQUE COM FAMOSOS. HOJE E H SETE SCULOS. 
No sculo 14, os livros de histria registram uma histria de estupro a crianas:  a da pequena Joan Seller, filha de 11 anos de um limpador de celeiros de Londres. Violentada por um mercador rico, o caso dela foi a julgamento, mas o tribunal acabou decidindo que, por seu status, ela no tinha direito de consentir ou no: estava basicamente  disposio dos homens de maior hierarquia. Assim, seu estuprador ficou livre e seguiu fazendo negcios. Apesar de hoje em dia tribunais no serem to francos nos veridictos, o desfecho para pessoas que denunciam ricos e influentes por estupro  quase sempre igual. Celebridades acusadas de violncia sexual raramente so condenadas e a credibilidade das vtimas sempre acaba em frangalhos. 

S  VIOLNCIA SE TIVER MARCAS? 
Em meados do sculo 20, pensadores acreditavam que "a maioria das mulheres tm a fantasia de ser estupradas" e que, afinal, era difcil saber se uma mulher que dizia "no" realmente no queria sexo. Por isso, "uma mulher precisa transmitir sua resistncia com mais que um mero protesto verbal ou uma atitude infantil como o choro". Na prtica, at hoje indcios de resistncia e marcas de violncia so essenciais para provar se o sexo foi consensual ou no nas cortes. Mesmo com estudos provando que uma das reaes mais comuns  violncia sexual  a vtima ficar congelada, esperando que tudo acabe logo. 

NO BRASIL
15% dos estupros so cometidos por duas ou mais pessoas.
50% dos estupros no Brasil so de crianas de at 13 anos e, desses, 68% so cometidos por pessoas prximas, como familiares ou amigos.

Fonte: Sinan/ Ministrio da Sade.

VOC SABE RECONHECER UM ESTUPRO? 
A personagem Joan, do seriado Mad Men, foi estuprada na segunda temporada por seu noivo - causando um debate nas redes sobre estupro marital, onde havia quem defendesse que se tratava de sexo consensual. A atriz, Christina Hendricks, ficou assustada: "O chocante  quando dizem coisas como: 'Sabe aquela cena em que a Joan meio que  estuprada?' Ou dizem estupro e fazem sinal de aspas com os dedos. Eu fico tipo: 'O que vocs esto falando?! Aquilo foi estupro!'" O problema no est s com os espectadores. Muita gente acha que no existe estupro na cama de casal - durante muito tempo, inclusive, vigorou o "dever marital", no qual sexo no casamento era considerado obrigao. Mas 14% das brasileiras so estupradas por seus parceiros. 


4#2 iCAR  DRIVE DIFFERENT 
Reportagem Ulisses Cavalcante, da QUATRO RODAS

     O ANNCIO DA PGINA ANTERIOR  de brincadeira, mas os rumores de que a Apple estaria desenvolvendo um carro so bem srios. O Wall Street Journal deu no comeo do ano que executivos da empresa, inclusive o designer-estrela Jonathan Ive, criador do iPhone, j tinham comeado a recrutar engenheiros, tcnicos e especialistas da indstria automobilstica. O jornal americano e outras fontes disseram que pelo menos mil profissionais debandaram de seus escritrios em montadoras como Ford e Tesla Motors para ocupar algum posto no galpo misterioso que a Apple montou nos arredores de sua sede - galpo que abrigaria a equipe encarregada de projetar um carro com uma ma incrustada no cap. Alguns desses profissionais nem guardam segredo sobre a transferncia, como o renomado Johann Jungwirth, ex-vice-presidente de pesquisa e desenvolvimento da Mercedes-Benz. 
     Ao seduzir gente ultraespecializada do mundo dos carros a morder a ma, a Apple j causou muita dor de cabea por a. Um dos problemas foi o processo movido pela A123, uma fabricante de baterias para carros eltricos. Dois Ph.Ds da A123, os cientistas Dapeng Wang e Indrajeet Thorat, trocaram seus empregos por um crach e um contracheque emitidos por Tim Cook. A empresa que ficou na mo no conseguiu encontrar substitutos para tocar os projetos e foi levada a encerrar as pesquisas. Alm disso, a dupla tinha um "contrato de fidelidade", impedindo-os de trabalhar em rivais do mesmo setor. Mas, ora, desde quando a Apple atua no setor automotivo, foco da A123? 
     Pois . A ideia de produzir um veculo j circula h pelo menos 15 anos nos corredores da Apple. Steve Jobs mesmo nunca escondeu esse sonho. Ele prprio era f de carros, especialmente os da Mercedes. 
     Os advogados de Jobs, alis, foram os primeiros funcionrios da Apple a comear a trabalhar no assunto. Desde 2003 o departamento jurdico da empresa vem expandindo a abrangncia das marcas da companhia  para o setor automobilstico. E a graduao dos profissionais automotivos que esto se mudando para a Califrnia sugere que a ideia no  s dar uma turbinada no CarPlay, o software que permite o uso do iPhone direto no "multimdia", a telinha que enfeita o painel dos carros mais recentes. 
     Mas, embora possa fazer sentido a Apple querer produzir um carro, a probabilidade de ela realmente sair para enfrentar grandes grupos automotivos  baixa. Mais plausvel seria a ambio de se tornar um dos principais fornecedores de vrias empresas. Isso seria, inclusive, mais lucrativo do que suar a camisa para vender automveis. No ano passado, a Ford obteve 2,9% de margem de lucro por carro vendido, enquanto a fatia da Apple fica na casa dos 30%. Trocar uma margem pela outra seria transformar ouro em chumbo. 
     Mas no falta quem tente transformar ouro em platina, reinventando a indstria do automvel. O Google faz pesquisas com carros que andam sozinhos h quase uma dcada. E a Tesla j rivaliza com Apple e Google no papel de empresa mais inovadora do mundo. A companhia de Elon Musk conseguiu tornar um carro eltrico, o Model S, um dos mais desejados do mundo. Na Noruega, ele  nada menos que o carro mais vendido do pas, logo  frente do Volkswagen Golf. 
     A Tesla, alis, mostrou que no  to impossvel assim bater os Golias da indstria automobilstica (GM, Ford, Toyota, Volkswagen...). Esses mastodontes construram por geraes o hbito de inovar a passos apenas graduais, sem grandes revolues no meio do caminho. Ao romper com essa tradio slow motion e construir um carro eltrico com mais do que o dobro da autonomia da concorrncia (470 quilmetros com uma carga completa) a Tesla mostrou que, sim, d para sacudir uma indstria centenria. 
     E essa de chacoalhar mercados velhos  a especialidade da Apple. Quando o produto mais sofisticado da empresa era o iPod, h dez anos, no faltavam boatos sobre um futuro celular com a ma estampada entre a tela e o teclado. Os mais conservadores, para variar, achavam que no, sem chance. O mercado de telefonia seria muita areia para o caminhozinho de Steve Jobs. Negociar com centenas de operadoras, uma mais jurssica que a outra, seria coisa s para gente grande: Motorola, Nokia... A a realidade chegou e deu no que deu: a Apple inventou o celular sem teclado, aniquilou a concorrncia e virou a empresa mais valiosa do mundo - j est em quase US$ 1 trilho (dez Ambevs, ou 15 Petrobras, a preos de maio). Alm disso, eles tm US$ 194 bilhes em caixa. Dinheiro vivo mesmo, que ela pode usar hoje se quiser. E se resolvesse usar, poderia comprar a GM (US$ 57 bi), a Ford (US$ 62 bi) e a Tesla (US$ 30 bi). Tudo  vista, e ainda sobraria US$ 45 bilhes para ir tocando a vida. S para dar uma ideia: a prpria Tesla precisou de meros US$ 500 milhes para sair do papel. At os bichos de estimao de Tim Cook esto acostumados com cifras maiores. 

O FIM DA BALIZA 
     A ideia de que a Apple est projetando um carro, ento, no tem nada de absurda. Mas qualquer afirmao sobre o suposto iCar  to especulativa quanto o carro do anncio falso que abriu esta matria - a propaganda de um carro com rodas esfricas. A ideia foi tentar mostrar alguma inovao que tornaria todos os outros carros do mundo obsoletos do dia para a noite, como a Apple fez com os celulares. Um carro com rodas esfricas, capaz de estacionar de lado, cumpre bem esse papel, alm de permitir um slogan constrangedoramente fcil de imaginar. 
     O fim da baliza, porm, talvez seja algo mais utpico que o fim dos teclados. At existem projetos de carros assim nos estdios de design das montadoras, mas fazer um veculo desses, com esferogrficas no lugar das rodas, exigiria toda uma nova indstria de pneus, freios, suspenso... Talvez seja muita areia at para uma empresa trilionria. O que d para saber mesmo   que uma Apple Motors teria outro desafio: tornar os carros eltricos viveis. Eltricos porque todos os especuladores da indstria apostam que o que o projeto secreto  o de um carro eltrico - tanto que, entre os novos contratados da Apple, esto ex-engenheiros da Tesla. Alm disso, o mercado dos carros eltricos ainda  quase to virgem quanto era o de tablets antes do iPad: a frota mundial movida a eltrons ainda  pfia, de 400 mil veculos - s uma ilhota energizada num oceano de 88 milhes de carros convencionais. 
     Para dar um choque nas gigantes, a Apple precisaria contornar a baixa autonomia desses carros. O Nissan Leaf, eltrico mais vendido no mundo,  capaz de rodar no mximo 130 km com uma carga completa. E a concorrncia no vai alm, com exceo do Model S e seus 470 km. O problema  que o carro da Tesla custa US$ 77 mil. Com essa grana, nos EUA, d para levar para casa dois Range Rovers Evoque (ou trs Nissans Leaf). A s d para vender bem na Noruega mesmo. Outro sinal de que a nova corrida do ouro  a corrida tecnolgica por baterias mais eficientes foi uma movimentao da Samsung. Recentemente a coreana adquiriu a diviso de baterias da Magna International, uma das maiores fabricantes mundiais do equipamento. No por coincidncia,  a principal fornecedora da Tesla. 
     Por trs dessa aquisio est uma preocupao com o futuro prximo. Hoje, os carros utilizam baterias de ons de ltio, cujo avano tecnolgico deve atingir seu pico em 2020, por conta de uma limitao qumica das substncias utilizadas. Quem descobrir primeiro uma alternativa vivel e eficiente aos ons de ltio, ento, ter encontrado a Pedra Filosofal - aquela que, nos delrios dos alquimistas, transformava chumbo em ouro. 
     O Leaf, por exemplo, precisa de pelo menos oito horas de sono em uma tomada 220 V para recarregar suas baterias. Quem reduzir esse tempo para 15 minutos ou menos convenceria a populao mundial a  trocar a combusto pela eletricidade. Afinal, um tanque cheio de gasolina custa caro: facilmente atinge R$ 150. Uma carga completa de bateria custa menos de R$ 10. Isso sem falar na parte ambiental. 
     Em maio, a Tesla Energy, uma das divises do grupo de Elon Musk, apresentou um sistema de baterias residenciais que pode armazenar energia de painis solares. Batizado de Powerwall, a tecnologia permite que o dono de um Tesla carregue as baterias  noite usando pura energia solar estocada de dia. Custa uma bica: US$ 3.500 pela bateria, mais outros tantos em painis solares, instalao... Para o bolso no vale a pena.  mais barato continuar plugado no grid de eletricidade, usando energia suja produzida em grande parte por termeltricas. Mesmo assim, s a possibilidade de ter um "carro solar" j  sedutora o bastante. E faz da Tesla a grande estrela do momento no universo da tecnologia. Mas esse  um ttulo que a Apple est acostumada a roubar da concorrncia. 

MA MOTORS
A Apple estaria desenvolvendo um carro eltrico. Com base no histrico da empresa, na sua tradio de mudar a lgica das indstrias em que entra e no que  possvel deduzir a partir de fatos, imaginamos nove itens que esse carro teria. Veja.

1- TUDO SE COPIA - Carro com iPad gigante no painel, que nem este aqui, j existe.  o Tesla S. Waze no parabrisa tambm no  novidade - a Navdy, fabricante de GPS, j vende um assim por US$ 299. Como a Apple no apenas cria, mas copia, ta dois acessrios que tm tudo para equipar um iCar.
2- RODAS ESFRICAS - O equivalente ao que foi o celular sem tecla do em 2007 seria um carro com rodas esfricas, capaz de estacionar de lado. A tecnologia existe, e est em carros-conceito, como o Peugeot Q - o problema  que nem existe uma indstria de pneus esfricos. 
3- CAMBIO? NO: JOYSTICK - Todo projeto de carro metido a futurista tem joystick. Mas no nosso iCar ele  til de verdade: como  que voc iria estacionar o carrinho de lado usando o volante, afinal? 
4- MERCEDES DA BRAUN - A frente  inspirada num carro-conceito da Mercedes, o BIOME, e a traseira, nos Porsche. Eram as montadoras favoritas de Steve Jobs. As linhas curvas vm dos projetos de Dieter Rans, criador dos eletrodomsticos da Braun e guru de Jony Ive, chefe de design da Apple.
5- UM CARRO AUTNOMO, S QUE NO -  Carro do futuro bom  carro que se dirige sozinho. Mas calma. J reportaram seis acidentes com carros autnomos do Google em vias pblicas. Imaginar carros assim  venda num futuro vislumbrvel, ento,  exagero. Mas sensores anticoliso, que freiam o carro, j so carne de vaca. 
6- BATERIAS DE GRAFENO -  A Apple deve apostar em baterias de ltio, como a Tesla. Mas o ltio  ineficiente. Esperamos que um iCar 6S da vida tenha bateria de grafeno, um material recm-desenvolvido, que armazena mais energia e carrega dez vezes mais rpido. 
7- SEM MISRIA - Nos eltricos de hoje, o assoalho tem centenas de baterias de ltio, iguais s de laptop. Num com baterias de grafeno, a carroceria toda seria uma bateria, j que o material promete ser nano o bastante para caber em qualquer lugar.
8- ARMRIO - Portas que abrem como um armrio, cada uma para um lado, so uma marca da Rolls-Royce. Com o Apple Watch, a empresa mostrou que gosta de luxo. Ento d para esperar portas de Rolls-Royce, oras.

Dirigir um carro eltrico  melhor do que voc imagina. Leia aqui: super.abril.com.br/blogs/crash/eletrico


4#3 FUTEBOL  UMA BREVE HISTRIA DA FIFA  FIFA. QUEM VAI LEVAR ESTA TAA?
Em meio a um escndalo de corrupo internacional, o manda-chuva do futebol, Joseph Blatter, renunciou ao controle de um negcio que faturou mais de US$ 2 bilhes em 2014. Acompanhe como uma associao amadora, com sede na Sua, se tornou um imprio com mais associados que a ONU e o que est em jogo na disputa pela posio mais poderosa do esporte mundial. 
Infogrfico: Rodolfo Rodrigues, Tiago Cordeiro, Flvio Pessoa e Tiago Jokura

RECEITA DA BOLADA
Em 111 anos, a Fifa teve oito presidentes e quatro grandes mandatos. Neste perodo, a arrecadao anual cresceu 4 milhes de vezes.

1904 - O primeiro presidente  o francs Robert Gurin. A Fifa comea com sete federaes associadas. Os ingleses, cujo objetivo  controlar o futebol com sua federao, a The Football Association (FA), aderem em 1905. Nos 70 anos seguintes, o comando  disputado entre franceses e britnicos. 

1906 - Gurin se retira, frustrado por no organizar um campeonato mundial. Assume o ingls Daniel Burley Woolfall

Era JULES RIMET (1921-1954) - Um dos fundadores da Fifa,  o presidente que mais dura no cargo (33 anos). Cria a Copa do Mundo em 1930, no Uruguai, e vira nome da taa em 1946. Em 1954  eleito como primeiro presidente honorrio.

1954  O belga Rodolphe Seeldrayers, brao-direito de Rimet, assume, mas morre dez meses depois.

1955  O britnico Arthur Drewry, presidente da FA, assume a Fifa e inicia um perodo de 20 anos de controle ingls.

ERA STANLEY ROUS (1961-1974) -  Morre Drewry e assume interinamente o suo Ernst B. Thommen. O britnico Stanley Rous vence as eleies extraordinrias, v a Inglaterra campe e defende a manuteno da frica do Sul nos quadros da Fifa, mesmo com o apartheid no auge e o preconceito da federao do pas contra jogadores negros. 

Era JOO HAVELANGE (1974-1998) - O brasileiro ganha o apoio das Amricas, da frica e da sia e torna-se o nico no-europeu presidente. Quebrada a hegemonia franco-britnica, profissionaliza a comercializao dos direitos de transmisso e da publicidade dos eventos e transforma a Fifa no gigante bilionrio atual.

Era JOSEPH BLATTER (1998-2015) - O suo, secretrio-geral na era Havelange, segue expansionista, aumentando o nmero de filiados e de torneios. Seu mandato  marcado por denncias de corrupo, incluindo compra de votos para eleger pases-sede de competies. Em junho, com a priso de executivos da entidade acusados de corrupo, renuncia dias aps ser reeleito.

NOVA ERA (2015-) -  Enquanto as eleies no vm - o prazo mximo  fevereiro de 2016 -, vrios sucessores so especulados. Pelo nmero de candidatos, h boas chances de que pela primeira vez na histria um ex-jogador de expresso assuma o comando. 

11 HOMENS E UM DESEJO
ESCALAMOS ALGUNS POSSVEIS SUCESSORES DE BLATTER
Correndo por fora
1. Jrme Valcke Secretrio-geral
2. David Gill Esperana inglesa de voltar ao poder
3. Issa Hayatou Preside a confederao africana
4. Chung Mong-joon Sul-coreano chefo da Hyundai
s. Ted Howard Chance dos EUA tomarem o poder

* CANDIDATOS NA ELEIO MAIS RECENTE

Falta oficializar
6. Michael van Praag* Preside a federao holandesa 
7. Lufs Figo* Ex-craque portugus
8. Michel Platini Manda no futebol europeu

Vo concorrer
9. Ginola* Ex-jogador francs
10. Zico  do Brasil-sil-sil 
11. Ali bin al-Hussein* Presidente da federao da Jordnia e um dos favoritos

BALANOU A RENDA
A FIFA FATUROU US$ 2,1 BILHES EM 2014 COM
A- Direitos de transmisso 742,6
B- Ingressos 476,6
C- Direitos de marketing 465
D- Camarotes corporativos 110,6
E- Licenciamento 60,7
F- Outras receitas 54,2
G- Operaes financeiras 108
H- Receitas operacionais 78

BOCA DE URNA
Como vota cada continente
CAF (frica) Tradicional aliada de Havelange e Blatter
UEFA (Europa) Oposio isolada desde a era Havelange
AFC (sia) Aliada de Blatter
CONCACAF (Am. Central e do Norte)  a mais envolvida nas denncias de propina
OFC (Oceania) Costuma votar com Blatter
CONMEBOL (Am. do Sul) Tem poucos votos, mas se mantm politicamente influente.

SALA DE TROFUS
Futebol nas Olimpadas (Londres, 1908)
A FIFA organiza 13 competies mundiais entre selees
Ano da Copa e Edio Inaugural
1930 Copa do Mundo (Uruguai)
1977 Mundial Sub-20
1985 Mundial Sub-17
1989 Copa do Mundo de Futsal
1991 Copa do Mundo Feminina
1992 Copa das Confederaes
1995 Copa d Mundo de Futebol de Areia
2000 Mundial de Clubes
2002 Mundial Feminino Sub-20
2004 Mundial de Clubes de Futsal
2008 Mundial Feminino Sub-17
2011 Copa Intercontinental de Futebol de Areia

Fontes: Livros Foul! The Secret World of FIFA: Bribes, Vote-Rigging and Ticket Scandals, de Andrew Jennings, How They Stole the Game, de David Yallop e Africa Footbal and FIFA. Sites Fifa, Daily Mail, Marca, Bloomberg Bisinessweek e ESPN


4#4 LUGAR  O FEIRO DAS ARMAS
Rifles, msseis, tanques, bombas, drones  e uma multido de 30 mil visitantes sedentos para testar e fotografar os ltimos lanamentos. Passeie conosco pela LAAD: a maior feira de armas da Amrica Latina. 
Reportagem: Emiliano Urbim

     O SENHOR NA MINHA FRENTE, palet escuro sobre o brao direito, aborda a moa do guich do Riocentro em tom amistoso. "Posso entrar armado?" Voc sabe que est indo para um lugar peculiar quando essa questo precisa ser esclarecida. A resposta, alis,  "no". H um guarda-volumes especial para armas na entrada da LAAD (Latin American Aerospace and Defence), principal feira latino-americana de defesa e segurana. Sorridente, o senhor agradece e d meia-volta, e eu tento adivinhar onde pode estar o seu revlver. A LAAD  realizada a cada dois anos, desde 1997, sempre no Rio de Janeiro.  um megaevento, em que 600 expositores mostram seus novos equipamentos, servios e tecnologias aos potenciais clientes: empresas de segurana, foras armadas e polcias do mundo inteiro (este ano, vieram delegaes oficiais de 71 pases). Os valores dos negcios fechados aqui no so divulgados, mas a indstria militar mundial movimenta US$ 1,8 trilho por ano, ou toda a economia do Mxico e da Argentina somadas. Nesse bolo, a fatia do Brasil ainda  pequena  mas, mesmo em tempos de crise, est aumentando: foi de menos de US$ 1 bilho em 2002 para US$ 3,7 bilhes hoje, segundo a Associao Brasileira das Indstrias de Materiais de Defesa e Segurana (Abimde). Grande parte dos 30 mil visitantes, no entanto, no pensa em negcios. Eles querem mesmo  se divertir. Militares e civis lotam nibus de turismo para ver armas de fogo, avies, drones, helicpteros, blindados. Principalmente armas de fogo. No  um passeio barato: para quem no  profissional da rea de defesa ou segurana, o ingresso custa R$ 100 (e, apesar da onipresena de armas, a praa de alimentao  um verdadeiro assalto: uma reles fatia de pizza custa R$ 12). 
     No hall de entrada, aps observar o sujeito do comeo do texto (armado? curioso? perigoso?), pego meu crach. Noutro canto, tiro uma foto e atravesso um detector de metais. At aqui, a decorao  neutra. As roupas dos atendentes, os revestimentos da parede e do cho, a iluminao:  tudo escuro, discreto, sereno. Nenhuma referncia explcita ao, digamos, contedo da feira. Se fosse o Salo do Automvel ou a Flip, tenho certeza que j teria visto algo mais chamativo, como um motor voador ou um livro gigante.  preciso subir uma longa rampa e atravessar um corredor at o Pavilho 2 para finalmente entrar na feira. Desse ponto em diante, tudo fica claro - literalmente, pois h muita luz e as paredes dos estandes so todas brancas. 
     O primeiro expositor  a Taurus, maior fabricante de armas do Pas. Seus revlveres, pistolas, submetralhadoras, rifles, carabinas e espingardas, todos devidamente descarregados, esto disponveis em balces envidraados para admirao e manuseio. Quem quiser pode ver e pegar as armas, sentir seu peso, fazer mira em um alvo imaginrio ou, uma opo extremamente popular, tirar selfie com a arma em punho. O som que vem das peas sendo travadas e destravadas (TLEC, PLEC, CLIC) pode deixar o observador meio tenso. Ao lado da Taurus, est a Glock: uma concorrente austraca, cujo estande tem a mesma proposta: muito pblico e sinfonia de rudos secos. 
     Cruzando os corredores, surgem outras atraes. Miniaturas de reatores nucleares com luzinhas piscantes, lanchas que parecem mais adequadas ao lazer do que  defesa e segurana, at um simulador de veculos da construo civil (parece um fliperama antigo). 
     As roupas identificam as tribos. Jovens com fardas da Marinha, do Exrcito e da Aeronutica circulam pelos corredores - alguns compenetrados, outros como se estivessem na Disney. Os policiais esto sem uniforme, mas  fcil identific-los: deve ser o jeito de andar, ou os culos escuros. Tambm h sujeitos de terno arrastando malas de rodinha, sinal de que esto chegando ou indo para o aeroporto. 
     Na parte externa, h vrios blindados. Um choque de realidade para quem mora no Rio, como eu: pois so essas as mquinas usadas na ocupao das favelas cariocas. Vistoriando cada um deles, h um grupo de estudantes de DGEI. Eu tambm no conhecia a sigla: pronuncia-se "D-Gei" e significa Defesa e Gesto Estratgica Internacional, um curso superior da UFRJ. O aluno Athos Balmont garante que todos j saem praticamente contratados pelas Foras Armadas brasileiras. Outra universitria feliz de estar na LAAD  Lena Lustosa, que faz Relaes Internacionais e, durante a feira, trabalha como recepcionista no estande de uma empresa alem. " uma experincia interessante, fico mais prxima do que estou estudando", diz Lena, que foi selecionada por falar francs e ingls. Quanto s cantadas em portugus, testemunhadas pela reportagem ali e em outros estantes, ela leva na esportiva. "Me fao de desentendida." 
     Enquanto isso, um sargento da Marinha que pediu para no ser identificado percorre a feira meio desanimado. "Fico triste de no ter toda essa tecnologia  nossa disposio", diz ele, que faz parte do contingente que ocupa a Favela da Mar. Ele estava de folga e foi  feira para ver uma espcie de bomba anti-celular, que bloqueia os aparelhos de uma rea especfica. Seria ideal para pegar de surpresa traficantes e milcias - ou, como ele diz, os APOP, Agentes Perturbadores da Ordem Pblica. 
     Estacionado em um canto est um blindado chamado Guarani, "projeto estratgico do Exrcito". Trata-se de uma "plataforma 6x6" (mesma lgica de 4x4, ou seja, todas as seis rodas tm trao), com "flexibilidade", "ao de choque" e "letalidade seletiva". As expresses entre aspas vm de um panfleto informativo - todos os expositores da LAAD oferecem folhetos e catlogos coloridos impressos em papel bom, o que me leva a pensar quantos daqueles bilhes de dlares so gastos em grficas.  
     Guardando o Guarani est uma tenente. Simptica, Camila Leo comenta que a maioria dos interessados pelo blindado so civis curiosos, em busca de informaes como nvel de blindagem e calibre das armas. Quando a conversa sai dos detalhes tcnicos (pergunto "quanto custa um desses?" e se "ele pode ser usado na invaso de uma favela?"), as respostas se tornam evasivas e ela me pede licena. Precisa estar a postos caso mais algum queira conhecer o veculo. 
     Nos estandes brasileiros, os expositores respondem s minhas (primeiras) perguntas repetindo o que est escrito nos folhetos. Os gringos so mais desconfiados. Vrios, ao identificarem meu crach de reprter, polidamente interrompem a conversa. Ouo no interview ("sem entrevista", em ingls) em todo tipo de sotaque, inclusive o argentino. Trata-se, afinal, de um evento bem especfico. A imprensa no  proibida, mas tambm no chega a ser bem-vinda.  tolerada. 
     Hora da pizza superfaturada. Enquanto como, reparo nas mesas ao meu redor. Vejo um cara com tapa-olho, e imagino se  ferimento de guerra. Reparo em grupos de executivos negros, e me lembro dos senhores da guerra da frica. Uma mesa de israelenses me faz recordar dos conflitos no Oriente Mdio. Mas aqui, na praa de alimentao, no h violncia. S negcios - e pizza. 
     Viro uma esquina e, de repente, um nome familiar: Odebrecht. Assim como outras marcas conhecidas que surgem pelos corredores (Rolls-Royce, GE, DuPont), a empresa brasileira est aqui com seu brao da indstria de armamentos, a Odebrecht Defesa e Tecnologia (ODT), envolvida com submarinos e msseis. Ali, o gerente de qualidade Luiz Carlos Moreira pede que eu o fotografe (com a cmera dele). E a explica que o objetivo das empresas ao investir em estandes grandes, como o da ODT, no  realizar vendas imediatas, mas fixar a marca. "Voc chama a ateno primeiro. Isso d incio a conversas, e os negcios so feitos em uma oportunidade futura", diz Luiz. 
     Se receber um carro zero de uma concessionria envolve certa pacincia e burocracia, imagine a negociao necessria para adquirir um helicptero russo, um foguete chins ou belas metralhadoras Beretta (design italiano, sabe como ). Foram dez anos de discusso at que, em 2013, o Brasil adquirisse 36 caas Grippen NG da sueca Saab. Na feira, h uma rplica do Grippen. O casal Rafael e Kelly Fernandes, de Araruama, na regio dos Lagos carioca, encarou a fila para tirar foto no cockpit do avio e ganhar um bon de brinde. Fixao da marca. 
     A tarde est acabando, e com ela a feira ( o ltimo dia de exposio). Ainda que o encerramento oficial esteja marcado para as 17h, ali pelas 15h30 o clima j  de fim de feira. A maioria dos expositores d os trabalhos por encerrados, e alguns at confraternizam em torno de garrafas de usque. Mas ainda h um ponto cheio de visitantes, que se recusam a ir embora. No estande da Taurus, as armas descarregadas ainda disparam. TLECS, PLECS e CLICS. 


4#5 ENTREVISTA  ELE EST NO MEIO DE NS
Para alguns, Richard Dawkins  um deus, j que criou o conceito de meme e ampliou a Teoria da Evoluo. Para outros, ele  o diabo encarnado. A SUPER conversou com essas duas faces do Dr. Dawkins, e descobriu uma terceira, bem humana: a do tiozo que adora contar causos, e que no perde a piada.
Texto e entrevista Alexandre Versignassi

 PROFESSOR, PRIMEIRO eu entrevisto o senhor, depois a gente abre para o pblico fazer perguntas, t? A coisa toda deve durar uma hora e meia. 
 Humpf  ele respondeu.  muito. 
 Tu-tudo bem  eu disse, controlando a gagueira nervosa Mas no foi o mau humor britnico de Richard Dawkins que me fez tropear nas palavras.  que, se no fosse aquele senhor de 74 anos, eu provavelmente estaria morando na rua.  que comecei minha vida de jornalista fazendo divulgao cientfica, e toda a literatura dessa rea se divide entre antes e depois de O Gene Egosta, o livro que esse cara escreveu em 1976, quando ainda era um zologo annimo. Alm de explicar a Teoria da Evoluo de forma cristalina o bastante para convencer a bancada evanglica do Congresso de que o darwinismo est certo, O Gene Egosta apresentou dois conceitos marcantes: um era o dos "memes" - os anlogos culturais dos genes. Um meme, Dawkins definiu,  qualquer trao cultural que se reproduz numa populao. Uma moda de corte de cabelo, por exemplo,  um meme: algo abstrato que vai "infectando" as pessoas como se fosse um vrus. O outro conceito que Dawkins lanou ali roava na fico cientfica. Dizia que ns, seres vivos, somos meros robs a servio dos verdadeiros donos do mundo: os genes. Voc morre, mas os genes dos seus olhos azuis podem sobreviver nos seus filhos e netos, certo? Logo, quem est mesmo no jogo da evoluo no  voc, so seus olhos azuis - os genes responsveis por olhos azuis, na verdade. E isso vale para qualquer gene, claro. Indivduos, nas palavras de Dawkins, seriam s "mquinas de sobrevivncia" que os genes desenvolveram. Se Darwin "matou Deus" ao mostrar que a vida complexa surgiu basicamente do nada, Dawkins "matou o homem", porque tirou os indivduos, ns, do centro do palco da evoluo, elevando o DNA, a matria-prima dos genes, ao papel principal. O sucesso do livro, por outro lado, matou o Dawkins cientista. Ele virou escritor em tempo integral, e foi entrando gradualmente em outra seara: a das religies. Ateu, como boa parte dos cientistas, nunca se conformou em simplesmente no acreditar num Deus. Passou a vociferar contra todas as crenas. O auge dessa briga veio com o livro Deus, um Delrio, de 2006, em que ele clama pelo fim das religies - opinio que tornou-o inimigo pblico de todos os padres, pastores, xams, monges e crentes em geral planeta afora. Em maio, s vsperas do lanamento de seu 12 livro, Fome de Saber, uma autobiografia em dois volumes, Dawkins esteve em So Paulo para falar no seminrio Fronteiras do Pensamento, A Editora Abril, que publica a SUPER, aproveitou e convidou-o para um bate-papo coletivo, no auditrio da empresa, comigo no papel de mediador e entrevistador. E a conversa com o professor emrito de Oxford, olha s, no durou uma hora e meia no. Foram quase trs horas, em que Dawkins detona Jesus, provoca psicanalistas, esculacha as cotas raciais, d dicas de fico cientfica e reflete que, poxa, j est na hora de ele experimentar LSD de uma vez.

PRIMEIRO, EU GOSTARIA DE AGRADECER A DEUS PELA OPORTUNIDADE DE FALAR COM O SENHOR, RS. 
Ei, eu tenho senso de humor! Posso te contar uma histria? Uns anos atrs, o jornal britnico The Guardian pediu para fazer uma entrevista conjunta, comigo e o [bilogo] David Attenborough. Ns rimos o tempo todo. O fotgrafo do jornal deve ter tirado umas 200 fotos, e 99% delas s podiam ser da gente ali, tranquilos, dando risada. Mas a que eles imprimiram mostrava ns dois agressivos, encarando um ao outro, como se estivssemos a ponto de brigar feio! O que  que tem de errado com vocs, jornalistas? 

ISSO NO  EXATAMENTE O QUE VAMOS FAZER AGORA, HEHE. MAS ENTO: VRIOS CIENTISTAS ATEUS NO TM PROBLEMA NENHUM COM RELIGIO. DIZEM COISAS DO TIPO: "SE EXISTE UM DEUS, OK. FICO FELIZ POR ESTAR AQUI, AJUDANDO A DESCOBRIR AS LEIS QUE ELE CRIOU". O QUE VOC ACHA DESSE PONTO DE VISTA? 
Acho que  covardia intelectual. Porque a cincia toda  em particular a biologia evolutiva  explica como voc pode chegar a coisas complexas se comear com algo simples. A vida comeou com pura simplicidade. O Universo, mais ainda. A cincia moderna detalhou como voc consegue escalar pequenos degraus, comeando com o que h de mais simples, at chegar ao nvel de complexidade de um crebro humano. Engenheiros humanos podem criar coisas complexas: foguetes, avies, computadores. Mas os engenheiros humanos no surgiram do nada. Eles aparecem como o produto final de um processo longo, lento e gradual de mudanas: uma seleo natural cumulativa. Ter descoberto isso  um triunfo da cincia. Ento, se o seu cientista hipottico diz "Ah, quando eu trabalho com cincia, estou entendendo como Deus fez tudo", isso no passa de uma desculpa. E uma covardia intelectual, uma traio a todo o esprito da cincia. 

FALANDO NA COMPLEXIDADE DA VIDA, VOC ACHA QUE ELA  UM FENMENO DISTRIBUDO AMPLAMENTE PELO UNIVERSO? OU SERIA ALGO TO COMPLEXO QUE S DEVE TER ACONTECIDO EM UM OU OUTRO PLANETA?
Acho as duas possibilidades excitantes, mas acredito que a vida comeou muitas vezes pelo Universo. Talvez em um bilho de planetas. Mesmo assim, trata-se de um nmero pequeno. Estimam que exista pelo menos 10 elevado  22 planetas no Cosmos [100 bilhes de trilhes - o nmero 1 seguido de 22 zeros]. Um bilho  10 elevado  9, um nmero pequeno, se comparado com 10 elevado  22. To nfimo que a chance de os habitantes de um planeta com vida encontrarem os de outro praticamente no existiria.  difcil de entender isso porque os nossos crebros no esto acostumados a lidar com nmeros na casa dos bilhes e bilhes. 

MUITA GENTE INTERPRETA OS CONCEITOS DE SIGMUND FREUD E CARL JUNG COMO CINCIA PURA, COMO COISAS TO INCONTESTVEIS QUANTO O HELIOCENTRISMO. ISSO NO SERIA TO "PERIGOSO" QUANTO UMA RELIGIO, PELA SUA FILOSOFIA? 
Tem uma histria adorvel que o Peter Medawar, grande bilogo, contou. Um psicanalista freudiano dizia que Charles Darwin odiava tanto o prprio pai que desejava destruir seu "pai divino" [Deus]. Medawar, ento, comentou, com ironia: Todo esse dio dele pelo pai, o Dr. Robert Darwin, fica evidenciado pelo fato de que Charles o chamara de 'o homem mais gentil e mais sbio que conhecia'. Pronto. Estava a a prova do quo profundamente esse dio estava reprimido". Esse  um resumo satirizado da viso freudiana de mundo. De acordo com ela, tudo pode ser explicado, mas, quando as evidncias apontam para o oposto da sua explicao, basta dizer que algo foi "reprimido". O perigo a est no fato de que temos algo que aparenta ser uma cincia, mas no .  um sistema fechado, que no admite qualquer tipo de refutao.  

VOC  CONTRA COTAS PARA NEGROS EM UNIVERSIDADES, E OUTRAS FORMAS DE ACO AFIRMATIVA. QUAL SERIA, ENTO, UMA FORMA MELHOR DE COMBATER O RACISMO? 
 difcil ser contra aes afirmativas, n? Elas apelam para o nosso senso de justia... A lgica : os negros do passado foram escravizados, ento os negros de hoje devem dar o troco, via aes afirmativas, s custas dos brancos de hoje. Mas isso  um tanto injusto, porque os brancos do sculo 21 no foram os responsveis pela escravido. No somos responsveis pelo que os nossos ancestrais, de qualquer cor ou sexo, fizeram. O que precisamos  acabar com todo tipo de discriminao. Gosto da histria de Georg Solti, que foi um grande maestro da Filarmnica de Chicago. Quando algum ia fazer um teste para tentar uma vaga na orquestra, ele exigia que o candidato tocasse atrs de uma cortina, para no discriminar ningum pela cor ou pelo sexo. Os candidatos tinham que entrar descalos, para que ele no pudesse identificar se a pessoa estivesse usando saltos ou no. Admiro isso. 

COMO CRIADOR DO TERMO "MEME", O QUE VOC ACHA DOS MEMES DE INTERNET? ELE SO UM BOM MODO DE ENTENDER O CONCEITO? 
A internet  um ecossistema de primeira linha para os memes. Quando escrevi O Gene Egosta, h quase 40 anos, queria terminar o livro dissipando a viso de que s o DNA, s os genes, obedeciam s regras da seleo natural. Eu poderia ter usado vrus de computador como exemplo, mas eles ainda no tinham sido inventados. Ento usei as heranas culturais: sotaques, roupas, moda, msicas. Todas essas coisas espalham-se  medida que as pessoas vo imitando umas s outras. Ao longo da minha vida, vi uma epidemia mundial de bons de beisebol. Depois, uma epidemia mundial de bons de beisebol virados para trs. Acontece em animais no-humanos tambm. Na Inglaterra dos anos 1950, quando colocavam garrafas de leite na porta da sua casa, passarinhos da espcie chapim aprenderam a abrir as garrafas para beber o leite. Essa habilidade se espalhou como uma epidemia por toda a Gr-Bretanha, conforme os pssaros foram imitando uns aos outros. A internet, enfim,  um timo lugar para os memes se espalharem. S no gosto da viso restritiva que o termo "meme de internet" ganhou, a de que um meme seria uma imagem com alguma coisa escrita em cima - e  isso que muitos jovens pensam! 

O INSTINTO QUE LEVA HUMANOS A ACREDITAR EM DEUSES  TO UNIVERSAL QUANTO O INSTINTO DE FAZER SEXO. O SEXO TEM UMA VANTAGEM EVOLUTIVA BVIA, J QUE TRANSAR PRODUZ BEBS. MAS E A RELIGIO? SE O IMPULSO RELIGIOSO EXISTE  PORQUE ALGUMA VANTAGEM EVOLUTIVA ELE TRAZ, NO? 
Sim, o comportamento sexual produz bebs. Mas hoje  usual que sexo no produza bebs. Usamos plulas, camisinhas... S que ainda amamos sexo. E existe uma lio nisso: a seleo natural no favoreceu um desejo louco por bebs, mas por sexo - bebs eram s uma consequncia automtica. Hoje bebs no so uma consequncia automtica, mas ainda gostamos de sexo. No caso da religio,  parecido. Existe uma predisposio psicolgica nas pessoas a obedecer autoridades. As crianas nascem vulnerveis. Dependem de conselhos dos pais, avs e ancies tribais para sobreviver. As crianas, ento, nasceriam com uma predisposio psicolgica, uma regra de ouro mental, que diz: "Acredite em tudo o que os mais velhos te falam", do mesmo jeito que existe uma regra de ouro dizendo: "Goste de sexo". Esse "acredite nos mais velhos" foi uma boa regra de ouro porque, em mdia, eles do bons conselhos mesmo. Mas  claro que h conselhos ruins. E o crebro de uma criana no tem como discernir o joio do trigo a. Se ela escuta o pai ou um sacerdote falarem "Voc deveria sacrificar uma cabra na lua cheia para ter uma boa  colheita", ela no tem como saber que esse  um conselho estpido. Do ponto de vista da criana, essa dica soa to bem quanto "No coloque a mo em cobras". E pior: uma vez que a criana tenha acreditado no conselho estpido, ela vai passar a mesma orientao para os filhos quando crescer. O processo  anlogo  ao de um vrus de computador. Os computadores so mquinas construdas e projetadas para obedecer qualquer coisa que o programador mandar. Eles no tm absolutamente nenhum jeito de saber quais programas so bons, como uma planilha de Excel, e quais so ruins, como um vrus. Ento os conselhos ruins que vm dos ancies so como vrus de computador. E as religies, estou sugerindo, so vrus da mente. 

NA FICO CIENTFICA, QUAL  A SUA REPRESENTAO FAVORITA DE VIDA EM OUTROS PLANETAS?* 
 a do Black Cloud, um livro de Fred Hoyle [que, alm de escritor, era astrnomo, e que cunhou o termo "Big Bang", em 1949]. Hoyle abandonou o clich de representar aliens como lagostas com olho de inseto. O ET dele  a "nuvem negra" do ttulo: um corpo gasoso, com crebro feito no de nervos, mas de ondas eletromagnticas. Numa cena memorvel, a nuvem pergunta para os humanos, via ondas de rdio, o que significa o termo "msica". Eles pegam e transmitem para ela uma sonata de Beethoven. A nuvem pede para tocarem dez vezes mais rpido, e fica acachapada pela beleza da sonata. Os personagens, ento, se perguntam: "Como  que essa coisa pode gostar de Beethoven, ainda mais tocado dez vezes mais rpido, se nem tem ouvidos?". E o cientista da turma responde que isso no tem a menor importncia, porque a msica pode ser tratada como pura informao matemtica. Realmente, no existe razo para que a msica esteja ligada a um fenmeno acstico. Quando ns ouvimos Beethoven, a informao entra pelos nossos ouvidos na forma de som, mas o crebro lida exclusivamente com os impulsos eltricos que a msica estimula nos nervos - os mesmos impulsos que so engatilhados quando vemos alguma coisa ou sentimos uma emoo.  por isso que acho Black Cloud uma tima obra de fico: ela expande a mente, e ensina voc a pensar de forma cientfica - coisa que fantasias sobrenaturais, como contos de fada, no fazem. 

ALGUMAS RELIGIES PREGAM O ALTRUSMO COMO PRINCPIO CENTRAL. VOC NO ACHA QUE ENSINAMENTOS ASSIM PROPORCIONAM ALGUMA VANTAGEM EVOLUTIVA?* 
O altrusmo j  programado pelos genes. Genes egostas criam seres vivos altrustas, que ajudam outros indivduos para obter vantagens depois. Isso explica o altrusmo na natureza. Mas entre humanos  diferente. Damos dinheiro para a caridade, doamos sangue, queremos ajudar quando vemos algum sofrendo - tudo sem esperar nada em troca. Acho que isso acontece porque os nossos antepassados viviam em bandos pequenos. Se voc fizesse um favor para algum, certamente cruzaria com o mesmo indivduo depois, e isso permitiria a retribuio do favor. A regra de ouro inscrita nos nossos genes, ento, seria anloga quela do "goste de sexo", que nos deixa malucos para transar [algo que no tem funo evolutiva alguma], e no para produzir bebs [a maior das funes evolutivas]. Essa regra inscrita no DNA seria: "Tenha prazer quando for gentil, sinta-se bem ao cooperar, regozije-se ao ser generoso, fique satisfeito s de fazer algo de bom para outra pessoa". 

VOC ACHA QUE, ALGUM DIA, VAMOS SER CAPAZES DE ENTENDER COMO O PROCESSO EVOLUTIVO DEU  LUZ O FENMENO DA CONSCINCIA?" 
Fico desconcertado pela ideia de "conscincia". Reconheo que eu tenho uma, e presumo que voc  tenha tambm, j que no sou um solipsista. Um solipsista  algum que acredita ser a nica entidade consciente do Universo, que acha que as outras pessoas so parte de um sonho ou alguma coisa assim. Tem uma histria tima, alis, com Bertrand Russell, o filsofo. Uma vez ele recebeu uma carta de uma senhora dizendo: "Caro Dr. Russell, fico muito contente de saber que o senhor  um solipsista. Existem to poucos de ns por a hoje em dia!" Enfim, essa questo  profundamente filosfica. Nem temos como saber se aquilo que eu chamo de "vermelho"  a mesma cor que voc enxerga como "vermelho". Mesmo assim, imagino que um dia o fenmeno da conscincia ter uma explicao cientfica, ainda que eu no faa a mnima ideia de qual ela seria. 

A BBLIA E OUTROS LIVROS SAGRADOS SO RECHEADOS DE CENAS SURREAIS. O QUE VOC ACHA QUE PODE TER SERVIDO COMO INSPIRAO PARA OS AUTORES?* 
Bom, a fome tem o mesmo efeito psicognico de algumas drogas. No deve ser por acidente que vrias religies impem perodos de jejum, inclusive. E tem os sonhos tambm. Vrias revelaes religiosas da tradio judaico-crist surgiram em sonhos. Temos o sonho de Jac [em que ele v uma escada para o cu, cheia de anjos], os sonhos dos profetas... Nunca tive uma viagem de LSD - talvez eu deva algum dia desses -, mas imagino que as experincias surreais que temos nos sonhos todas as noites sejam um tanto parecidas. Tambm acho notavelmente maluco que, embora os meus sonhos sejam totalmente surreais, nonsense absoluto, eu nunca perceba que estou sonhando.  algo estranho de imaginar quando voc est acordado. 

SE VOC PUDESSE RESSUSCITAR ALGUM E LEVAR PARA JANTAR, QUEM SERIA?* 
Jesus seria um bom candidato. Eu adoraria dar uma cpia em aramaico de Deus, um Delrio para Cristo, e a ter uma conversa com ele. 

*Perguntas feitas pelo pblico presente no auditrio da Abril - em sua maioria, jornalistas de outras publicaes da editora.

Veja trechos desta entrevista em vdeo, com perguntas extras: super.abril.com.br/blogs/crash/dawkins/


4#6 ENTRETENIMENTO  POR DENTRO DO NETFLIX
Frias ilimitadas, show de calouros obrigatrio, atores escolhidos por computador. Conhea o dia a dia e o futuro do Netflix - que j corresponde a um tero de todo o trfego da internet.
Reportagem Marcel Nadale, da Califrnia

     CERCA DE 250 PESSOAS esto reunidas no auditrio, vendo uma apresentao sobre os resultados da empresa. Uma situao normal em qualquer corporao. Mas a o inesperado acontece. A tela e as luzes se apagam, e comea um musical: em que os funcionrios recm-contratados cantam e danam, fantasiados de super-herois, tentando repetir a coreografia ambiciosa que eles treinaram com afinco no ltimo ms. A maioria no consegue (como bailarinos, so excelentes engenheiros). Mesmo assim, so ovacionados no fim do espetculo. Esse  o ritual de boas-vindas do Netflix. A empresa, que surgiu 18 anos atrs - quando mandava os filmes para os assinantes pelo correio, em DVDs -, acaba de chegar a 62 milhes de usurios, em 50 pases. E pretende lanar seu servio em 200 pases at o final do ano que vem. 
     Seu quartel-general fica em Los Gatos, uma pacata cidadezinha a 84 km de San Francisco. Em vez do arranha-cu espelhado e moderno que seria de se esperar de uma empresa que faturou US$ 47 bilhes no ano passado, o Netflix ocupa dois prdios baixinhos, de trs andares, com cara de resort turstico. O CEO, Reed Hastings, gosta de fazer reunies num sof ao lado da cafeteria. Se o papo for particular (e o tempo estiver bom), leva o funcionrio para um passeio em um riacho ao lado do prdio. O Netflix cumpre aqueles clichs que se imagina das empresas do Vale do Silcio, como dar academia e refeies grtis aos funcionrios (com direito a uma distribuio diria de pipoca, s  16h), mas vai um pouco alm. Alm de fazer o prprio horrio, os funcionrios podem instituir as prprias frias. Podem sair quando quiserem e, mais importante, por quanto tempo quiserem. Isso faz parte da cultura interna da companhia, batizada de "Liberdade & Responsabilidade", e na prtica acaba tendo o efeito contrrio: os funcionrios tiram frias curtas e trabalham bastante. 
     Estaes com PlayStations, Wiis, Xboxes, smart TVs, tablets e celulares permitem que os cerca de 1.100 engenheiros no prdio testem rapidamente, em qualquer plataforma, cada mnima mudana no servio. E elas so frequentes. Estima-se que os algoritmos que regem o Netflix sofram ao menos uma alterao a cada trs dias. A maioria  sutil, motivada pelos chamados "testes A/B", em que dois grupos de at 400 mil assinantes cada recebem, sem saber, interfaces levemente distintas. "Se um dos grupos tiver um aumento no total de horas de streaming,  sinal de que a mudana funcionou. A ela  aplicada a todos os usurios", explica Todd Yellin, vice-presidente de inovao. A nova cara do site do Netflix, que deve estrear ainda este ms,  resultado desse processo. "As nossas decises so baseadas em 70% de dados e 30% de intuio", afirma Peter Friedlander, executivo responsvel pelo contedo prprio do Netflix. 
     O melhor exemplo disso  a srie House of Cards, grande sucesso e maior aposta do Netflix nos ltimos anos. Analisando as buscas dos usurios, o Netflix percebeu que o ator Kevin Spacey, o diretor David Fincher, e a verso original da srie (que havia sido feita na Inglaterra) eram excepcionalmente populares. Ao olhar essa combinao de dados, os executivos se sentiram to confiantes que apostaram alto. Investiram US$ 100 milhes para contratar Spacey e Fincher e produzir as duas primeiras temporadas da srie, que virou o carro-chefe do Netflix. Deu certo. Nos trs primeiros meses aps a estreia de House of Cards, em 2013, a empresa ganhou 2 milhes de novos usurios, aumentando o faturamento em US$ 160 milhes. Pagou o investimento, e sobrou. 
     O Netflix tambm vai para a rua fazer pesquisas, bate nas portas dos usurios e pergunta a eles ao que costumam assistir. No ano passado, entrevistou 1.500 famlias pelo mundo. Descobriu que nos EUA a televiso ficou muito segmentada, e hoje existem poucos programas que atraiam espectadores de todas as idades, da criana ao vov. Viu uma oportunidade, e respondeu a ela: fechou um contrato para produzir quatro filmes com o comediante Adam Sandler, conhecido pelo humor "familiar", e vai ressuscitar a srie Trs  Demais (Full House), sobre trs marmanjos que se vem encarregados de cuidar de trs crianas - a verso original foi exibida, entre 1987 e 1995, pela rede ABC.  o tipo de aposta que as TVs abertas e os canais a cabo no esto fazendo. 
     Nem tudo que o Netflix tenta d certo, claro. O melhor exemplo disso  o tmido resultado da srie Marco Polo. Com um oramento de US$ 90  milhes (segundo maior da TV atual, atrs apenas de Game of Thrones), a srie no repercutiu como se esperava. O pico de audincia de Marco Polo foi dois dias aps a estreia, quando ela foi vista por 1% do total de assinantes do Netflix, segundo nmeros da empresa de pesquisas Luth Research.  pouco (e ficou atrs de outras grandes apostas do site, como House of Cards e Daredevil, que alcanaram de 6,5% e 10,7% dos assinantes em suas respectivas estreias). Mesmo assim, a srie deve ganhar uma segunda temporada. "Os nossos produtos tm prazo de validade longo", diz Friedlander. Temos dados mostrando que muitas pessoas s agora esto vendo a primeira temporada de House of Caras" (lanada h dois anos). A empresa tambm poder usar dados para corrigir eventuais falhas e melhorar Marco Polo. "Ns conseguimos saber se muitos telespectadores desistiram de ver um programa numa determinada cena, por exemplo", explica o gerente de pesquisas Zach Schendel. "Levamos essa informao  equipe de contedo, e eles decidem o que fazer." 
     No ano passado, o Netflix lucrou US$ 266 milhes.  bastante, mas nem chega perto dos gigantes da internet (em 2014, o Google lucrou US$ 14 bi e o Facebook US$ 2,9 bi). A empresa comeou a experimentar com uma coisa que  tabu para muitos usurios: propaganda. No comeo de junho, passou a exibir trailers - de produes do prprio Netflix - antes de alguns filmes. Ele diz que foi apenas um teste, e no vai vender o espao a anunciantes. 
     
VENDO A BANDA PASSAR
     Quando voc assiste a um filme no Netflix, o seu computador (ou smart TV, ou videogame) baixa 2 GB de dados, em mdia.  que os arquivos de vdeo so grandes. Por isso, o Netflix j corresponde a 37% de todo o trfego da internet, nos EUA, no horrio nobre. E, com a chegada de filmes e sries gravadas no formato Ultra HD (4K), que tem mais qualidade de imagem e o Netflix j est adotando em suas produes, a conta fica sete vezes maior: um filme nessa resoluo tem 14 GB. Hoje, apenas 1% dos usurios do Netflix tem televises Ultra HD, mas esse nmero vai crescer bastante nos prximos anos. Ser que a internet ter capacidade suficiente? Um estudo da Cisco Systems, que fabrica equipamentos de infraestrutura da rede, diz que sim. Daqui a quatro anos, a velocidade mdia da banda larga no Brasil ser 19 Mbps - nvel adequado para ver contedo Ultra HD. Mas o vdeo vai ocupar uma parte gigantesca da internet. Segundo o estudo, o streaming de vdeo (incluindo todos os servios, no s o Netflix) representar 84% do trfego no Brasil em 2019. 
     Inclusive porque a TV a cabo finalmente comeou a migrar para a internet. Em maro, a HBO lanou (nos EUA) o aplicativo HBO Now, que permite ver os programas do canal pela internet, pagando uma mensalidade de US$ 15. Neste ms, o canal Showtime, outro gigante da TV paga, tambm vai lanar o prprio app (o que significa que o Netflix poder perder sries como  Penny Dreadfal e Dexter, que pertencem ao Showtime). Se a AMC decidir fazer o mesmo e lanar um app prprio, adeus Breaking Bad e Mad Men. E por a vai. O mercado de vdeo online, onde Netflix e YouTube reinaram praticamente sozinhos, est cada vez mais disputado. 
     E o que vai acontecer depende muito de outra questo: a chamada "neutralidade da rede". Esse conceito diz que todos os sites e servios devem ser tratados igualmente, ou seja, os provedores de internet no podem privilegiar a velocidade de determinados sites. No Brasil, o Marco Civil da Internet, aprovado em 2014, exige a neutralidade - mas, nos EUA, o assunto ainda est em debate. Oficialmente, o Netflix  a favor da neutralidade. Mas, no ano passado, fechou um acordo com os principais provedores americanos, Comcast e Verizon, que juntos tm mais de 120 milhes de usurios. O Netflix paga uma taxa (cujo valor no foi divulgado) para essas empresas, que em troca garantem acesso rpido ao site. Na prtica, os provedores mandam na internet - e tm um poder gigantesco sobre os sites e apps de vdeo. 
     Por tudo isso, o Netflix ter de se reinventar nos prximos anos. Inclusive para enfrentar um concorrente fortssimo: os piratas (leia no prximo texto). Mas o pessoal em Los Gatos parece tranquilo. "Voc  estimulado a experimentar, a tentar. s vezes as coisas do errado, mas tudo bem", diz Zach Schendel. Como os novos funcionrios descobrem no show musical, o importante  entrar na dana. 

O Netflix ocupa 37% de todo o trfego da internet, nos EUA, no horrio de pico.
66% dos vdeos so vistos na TELEVISO
27% no COMPUTADOR
7% em CELULAR ou TABLET
10 BILHES DE HORAS de vdeo foram assistidas no primeiro trimestre de 2015
45GB de dados   quanto cada usurio do Netflix consome de dados POR MS
62 MILHES de usurios em mais de 50 pases
5,5 milhes de usurios ainda recebem os filmes pelo correio, EM DVDS
70% do contedo visto so SRIES
37% dos usurios preferem esperar para assistir EM MARATONA
76% no se importam com SPOILERS
51% COMETERIAM ADULTRIO de Netflix (assistir a uma srie escondido do cnjuge).


4#7 ENTRETENIMENTO - E POR TRS DO POPCORN TIME
Ele e bem parecido com o Netflix. Mas tem filmes mais recentes, todos os lanamentos, e no cobra um centavo. E surgiu onde menos se esperava. Viaje conosco  Argentina conhecer os bastidores do servio mais polmico da internet.
Reportagem Eduardo Szklarz, de Buenos Aires

     "NS RAMOS DOIS, no comeo. Cada um em sua casa. No primeiro dia, j tnhamos uma verso do programa. Em uma semana, ele estava 80% pronto", conta  SUPER o portenho Federico Abad. Ele, junto com um amigo que se identifica apenas como Sebastin,  o criador do software mais inovador, e polmico, dos ltimos tempos: o Popcorn Time, que permite ver filmes e sries assim que so lanados sem pagar nada. O software est ganhando 100 mil usurios por dia - um ritmo de crescimento explosivo, similar ao do Netflix. Estima-se que haja de 4 a 10 milhes de pessoas usando o programa. 
     E isso tem gerado uma enorme controvrsia, por um motivo simples: a maior parte dos filmes e das sries disponveis no Popcorn Time  pirata. So cpias ilegais, vindas da rede BitTorrent - que existe desde 2002. A diferena  que o Popcorn torna a coisa infinitamente mais fcil. Antes, era preciso entrar num site de torrents, procurar o filme desejado, esperar o download terminar e s a comear a ver. Com o Popcorn,  diferente. Ele mostra uma tela bonita, com os cartazes dos filmes todos organizados. Basta dar um clique no que voc quer ver, e o filme comea a rodar instantaneamente (e j com as legendas).  que o Popcorn consegue tocar o arquivo de vdeo "em tempo real", ou seja, enquanto ele ainda est sendo baixado. Uma inovao tecnolgica considervel - e que fez o programa ser apelidado de "Netflix dos piratas". Tudo comeou porque Sebastin e Federico estavam insatisfeitos  com o Netflix - que geralmente s recebe os filmes um bom tempo depois que foram lanados.  assim por uma questo de custo (para incluir todos os filmes recentes, o Netflix teria de investir muito mais, e isso deixaria a mensalidade muito mais cara), e pelas barreiras geogrficas impostas por Hollywood. Um filme lanado nos EUA pode demorar meses at ser lanado na Amrica Latina - ou nem ser. 
     "Ns odiamos no poder ver certos filmes em casa. O Popcorn Time  uma experincia para mostrar que  possvel fazer algo melhor para os usurios", declararam os dois ao lanar o programa, em maro de 2014. Com a ajuda de mais algumas pessoas, eles terminaram o software, inventaram um mascote - um saquinho de pipoca chamado Pochocln (variao de pochoclo, "pipoca") -, e jogaram na internet. E a ganharam um empurro involuntrio. Foi quando, ainda em maro de 2014, o diretor argentino Juan Jos Campanella, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro por O Segredo dos Seus Olhos, resolveu se manifestar no Twitter.
      Parabns, "Sebastin", criador do Popcorn Time. Voc  mais um ladro argentino em nossa longa lista. 
     O tiro saiu pela culatra. Graas a Campanella, que tem 340 mil seguidores, muito mais gente ficou sabendo da existncia do Popcorn, e surgiu uma onda em defesa do programa. "Para ser ladro, primeiro  preciso ter roubado algo", disse um dos seguidores de Campanella. "Nem todos os torrents so piratas. E Sebastin s fez uma interface (para acess-los)", replicou outro. Os downloads dispararam. Os criadores do Popcorn foram procurados pela MPAA, a associao de estdios de Hollywood, e ameaados com processos judiciais. 
     Ficaram com receio. Guardaram o saquinho de milho, apagaram o fogo. "O Popcorn Time vai acabar hoje", disseram eles numa carta de despedida. Insistiam que o programa no era ilegal, mas que no tinham condies de enfrentar a indstria do cinema. Temos que seguir com as nossas vidas." Para o pessoal de Hollywood, foi uma lufada de alvio. "O aplicativo de pirataria de filmes Popcorn Time est morto", decretou a revista Variety, maior publicao de cinema dos EUA. 
     Era cedo para cantar vitria. Outras pessoas pegaram o cdigo-fonte do programa, e trataram de ressuscit-lo. Clones do Popcorn comearam a pipocar pelo mundo. Eles crescem mais aceleradamente do que o original, e so ainda mais sofisticados: empregam artifcios para dificultar o rastreamento dos usurios.  o caso do vwww.popcorn-time.se, que utiliza um servidor na Sucia, mas  mantido por colaboradores do mundo inteiro, a maioria europeus. "Somos todos usurios do Popcorn Time original e ficamos tristes ao v-lo acabar. Ento decidimos fazer alguma coisa a respeito", disse um deles  SUPER. Ele no quer ser identificado, mas diz que no tem medo. "No estamos fazendo nada de errado ou ilegal. No somos um site de torrent. No criamos nem hospedamos torrents. O Popcorn Time  apenas  um motor inteligente para torrents, com uma interface incrvel." 
     Mais ou menos. Outra reencarnao do aplicativo, o popcorntime.io,  um pouco mais cauteloso. Ele avisa, em sua pgina, que baixar torrents pode ser ilegal - depende da lei do pas do usurio. "Se voc realmente se importa com isso,  melhor dar um Google para saber qual a situao onde voc mora", adverte. No Brasil, ela  a seguinte: o Artigo 184 do Cdigo Penal prev pena de multa ou deteno de trs meses a um ano para quem violar os direitos de autor. Mas essa punio  para quem tem intuito de lucro. Como o prprio Popcorn Time no busca ganhar dinheiro, fica numa zona cinzenta entre o legal e o ilegal. 
     "O Popcorn Time no pratica pirataria. Ele no  um servidor, onde os filmes esto armazenados. Apenas permite que pessoas que tenham esses vdeos se comuniquem entre si", diz o socilogo Srgio Amadeu da Silveira, que presidiu o Instituto Nacional de Tecnologia da Informao no primeiro governo Lula. 
     A indstria do entretenimento pensa de outra forma - e o Netflix tambm. No comeo deste ano, em carta aos acionistas da empresa, o CEO Reed Hastings disse que "a pirataria continua sendo um dos nossos maiores competidores", e se referiu especificamente ao Popcorn Time. Citou o caso da Holanda, onde a quantidade de buscas na internet pelo programa j  similar  quantidade de buscas pelo Netflix (e superior s buscas pela HBO). "Mais da metade dos internautas no Brasil compartilham arquivos  de msica e vdeo", diz Amadeu. "Vamos fazer o que com essas pessoas? Consider-las criminosas?". Para ele, as empresas de entretenimento deveriam desenvolver novos modelos de negcio, que levem em conta essa realidade. 
     "Eu tenho Netflix, aceito pagar US$ 10 por ms para ver o contedo dele. Mas muitos filmes demoram tanto a chegar aqui que a gente usa o Popcorn", diz a mdica argentina Elisa Aguero, 37 anos. Os criadores do programa colocam a questo de um jeito mais direto: "Os provedores de streaming na Argentina acham que Quem vai Ficar com Mary?  um filme recente, quando na verdade  to velho que poderia votar aqui" (o filme j tem 17 anos). 
     "No competimos com Netflix, nem com ningum. Estamos fazendo o Popcorn Time porque acreditamos que esse servio deve existir. E pelo amor que recebemos dos usurios, que  interminvel", disse  SUPER um dos atuais donos do Popcorn. "A gente ainda no consegue acreditar no crescimento do projeto. Os estdios de Hollywood, que recentemente obtiveram vitrias contra sites de torrent (os criadores do conhecidssimo Pirate Bay foram condenados e presos, embora o site tenha voltado ao ar), certamente tentaro novas manobras para acabar com o Popcorn. Mas os atuais donos dizem que no tm medo. "Quando ns assumimos o programa, prometemos s pessoas que ele nunca seria desmantelado. Estamos aqui para fazer o Popcorn Time durar para sempre e torn-lo mais forte, melhor e disponvel para todos." 
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5# ORCULO julho 2015

O SENHOR DE TODAS AS RESPOSTAS
EDIO TIAGO JOKURA

Voc  Orculo de todo o Universo? Sendo o caso, me responda: E SE UM ASTRONAUTA MATAR UM COLEGA NO ESPAO?  Fernando Lima, Santo Andr, SP
NO APENAS DESTE, mas tambm de todos os outros universos, Fernando. Pelas leis dos terrqueos, se o assassino fosse americano, a vtima japonesa, a nave francesa e aterrissasse no Brasil, com o assassinato ocorrendo sobre o espao areo alemo, todos esses pases envolvidos teriam competncia para julgar o crime. Mas, como regra, o pas em que a nave aterrissou julgaria. No entanto, caso o Brasil tivesse um acordo de extradio com os pases do algoz e da vtima envolvidos no crime, o assassino poderia ser enviado a um dos dois lugares para julgamento. O pas mais interessado seria o da vtima (Japo). S que o pas do criminoso (EUA) pode no concordar com a sentena. A, aps cumprir a pena no Japo, o assassino voltaria aos EUA para cumprir mais uma pena, caso a punio pela Justia americana fosse mais severa. 
18 mortes de astronautas j ocorreram em misses espaciais. Todas acidentais: nenhum assassinato.

Por que algumas pessoas desprovidas de inteligncia so chamadas de toupeiras? Toupeiras so burras? - Guilherme Ribeiro. Governador Valadares. MG
NO. ELAS APENAS ENXERGAM MUITO MAL. Afama de burra pegou por outros motivos. Primeiro, porque o crebro delas  pequeno em relao ao de outros mamferos. Segundo, por causa do estilo de vida: elas passam dia e noite debaixo da terra, cavando tneis. Por viver no escuro, em buracos subterrneos, enxergar quase nada, no ter orelhas e executar a mesma tarefa cotidianamente, ser uma toupeira virou sinnimo de ser uma pessoa pouco inteligente e de poucas habilidades.

P PUM 
Quando um homem  presidente, sua mulher  a primeira-dama. E quando a mulher  presidente? Como  chamado seu marido? - Thaiz Vieira. Taguatinga, DF 
Primeiro-cavalheiro. 

NMERO INCRVEL 92,4 milhes de reais  a premiao total da edio de 2015 do torneio de tnis francs. 

OUTRO DADO RELEVANTE SEM NENHUMA LIGAO 92,4 milhes de dlares foram doados para a ONU amparar vtimas dos recentes terremotos no Nepal.

Senhor dos jogos: sou f de tnis mas no saco a pontuao. Por que a contagem segue a ordem 15, 30 e 40? - Pedro Fernandes. Salvador, BA 
CULPA DOS ANTEPASSADOS de Roland Garros. No sculo 17, franceses curtiam o "jogo de palma", em que rebatiam uma bola com as mos. Cada metade da quadra media 45 ps e, a cada ponto, o pontuador avanava 15 ps. Como no podia comear o terceiro ponto em cima da rede, avanava s 10 ps, criando a sequncia 15, 30 e 40. Outra hiptese  a de que um relgio marcava os pontos de cada game de 15 em 15 "minutos", at o 60. S que "quarenta e cinco" seria difcil de entender ao ser gritado pelo juiz e foi abreviado para "quarenta". 

Quer que eu desenhe? 
Por que, ao fazer fora, os msculos crescem em volume? - Carlos Melo. Vitria, ES
1- Quando o msculo est relaxado, as fibras musculares ficam esticadas.
2- Ao fazer o muque, as fibras contraem e ocupam um espao menor, dando a iluso de que o msculo cresceu.

Qual  o parlamentar menos atuante que nos representa em Braslia? - Ykaro Jos de Andrade, Taquaritinga do Norte, PE
ENTRE os DEPUTADOS, o menos atuante  Rubens Otoni [*No caso de Otoni, houve empate tcnico com vrios pares, mas ele se destacou negativamente por ser o que tem mais representatividade entre os menos atuantes.] (PT-CO) e entre os senadores, Joo Alberto Souza (PMDB-MA). Ambos so os que menos propuseram leis e que menos debateram em plenrio segundo o Atlas Poltico - iniciativa apartidria que avalia deputados e senadores por meio de dados objetivos. 

RAIO-X DO CONGRESSO
Deputados federais e senadores melhor e pior avaliados (notas de 0 a 5)
DEPUTADOS
Chico Alencar PSOL-RJ 4,59
Joo Bittar DEM-MG 0,44

SENADORES
Aloysio N. Ferreira PSDB-SP 4,82
Epitcio Cafeteira PTB-MA 2,02


COMO COMEOU A RIVALIDADE ENTRE BRASIL E ARGENTINA NO FUTEBOL? - Jucelia Bastos, So Jos dos Pinhais, PR 
SELETA JUCELIA, essa rixa histrica entre pases vizinhos se transferiu para o esporte j nos primeiros dois duelos, em 1914. A primeira partida da seleo brasileira de futebol contra outro selecionado foi uma derrota em amistoso para os hermanos por 3x0, em Buenos Aires. Uma semana depois, teve revanche valendo taa, tambm na capital argentina: dessa vez o Brasil ganhou por 1x0 e levantou o primeiro caneco, a Copa Roca (atual Superclssico das Amricas). Desde ento, houve muita briga e pancadaria entre clubes e selees dos dois pases. A rivalidade se acirrou ainda mais da dcada de 1970 para c, com duelos nas Copas do Mundo de 1974, 1978, 1982 e 1990. Mas nos ltimos trs jogos valendo ttulo - duas Copas Amrica e uma Copa das Confederaes - o Brasil sapecou os rivais.

Esclarea uma dvida, supremo camarada: qual a origem do termo "soviticos", usado para se referir aos russos durante a 2 Guerra Mundial? - Ruan Moura, So Paulo, SP 
PRIVET, TOVARISHCH RUAN. "Sovitico" Vem do russo soviet (conselho). Assim como no portugus, conselho significa tanto "sugesto" como "grupo de pessoas reunidas para um mesmo fim". Os sovietes eram os conselhos de trabalhadores criados durante as revolues russas de 1905 e 1917, e representavam os operrios que ajudariam os revolucionrios na tomada do poder. Na Unio das Repblicas Socialistas Soviticas (URSS) no havia parlamento, e sim um soviete supremo que comandava sovietes regionais. Por causa dessa mania de ter conselhos para tudo, os cidados da URSS comearam a ser chamados de soviticos. Os conselhos foram extintos em 1993, e hoje a Rssia  uma Repblica Federativa Presidencialista.

Por que pelos do corpo crescem s at certo tamanho? E os cabelos, tambm tm limites? - Giovani Damico, paradeiro desconhecido 
No se descabele por isso: cada pelo carrega informaes genticas que determinam o tamanho e a espessura. O que diferencia o comprimento  o tamanho da fase de crescimento (angena), que dura at sete anos nos fios do couro cabeludo - eles chegam at 1 m de comprimento - e, no mximo, 45 dias nos outros pelos do corpo. 

Se uma formiga se perder, ela pode morar em outro formigueiro? - Leiza Augsburger, Lom, Togo 
 difcil uma formiga se perder. Elas so timas em deixar rastros olfativos no cho e em se orientar por referncias visuais, como pedras, rvores e sombras. Mas se o senso de orientao falhar,  provvel que ela vire comida de lagarto, aranha ou sapo. Voc deve estar se perguntando: u, mas no tem outro formigueiro para morar? At tem, mas na natureza as formigas so identificadas pelo cheiro nas comunidades. Se ela entrar em um novo lar, vai ser aniquilada ou expulsa. Na cidade, porm, as formigas ampliaram o conceito de comunidade e dividem seus ninhos com forasteiras. 

Chiclete "desgruda" msica 
NOVENTA E OITO Voluntrios escutaram por trs minutos uma msica pegajosa do Maroon 5 ou do David Guettae. Metade mascou chiclete em seguida e pensou menos na cano depois.  que fazer outra tarefa logo depois de ouvir msica piora a memria de curto prazo e faz o som grudento sair mais rpido da cabea. 

Esposas que ganham mais so mais tradas 
PESQUISA feita ao longo de dez anos, com 2,7 mil casais, mostra que homens que sustentam a casa tem 5% de chance de serem trados. Quando as mulheres ganham mais, elas tm 15% de chance de levar um chifre. A traio seria uma forma (machista) de reafirmar a masculinidade perdida. 

Absorvente detecta cncer 
AMOSTRAS de absorventes internos de 38 mulheres com cncer no endomtrio e outras 28 moas sem a condio foram recolhidas por pesquisadores. Analisaram o sangue e encontraram substncias qumicas liberadas para combater o tumor nas amostras de quem portava a doena. 

Por que ligar o ar-condicionado do carro gasta mais combustvel? Ser que existe refrigerao que no altere o consumo? - Leandro Leito, Curitiba. PR 
NO TEM JEITO, todo ar-condicionado  beberro e precisa da energia de lcool ou gasolina para funcionar. Ou seja, para voc dirigir sem suar, seu motor consome entre 10% e 20% a mais, dependendo do tamanho da cabine. Se voc quiser economizar baixando os vidros, no ultrapasse 60 km/h. Acima disso, vale a pena fechar as janelas e ligar o aparelho.  que o motor faz menos fora para manter a refrigerao do que para lutar contra a resistncia do ar.

Por que a aliana de casamento  usada na mo esquerda? - Nilton Facci, Maring, PR 
O COSTUME SURGIU na Grcia antiga, e bombou com os romanos. Tudo porque acreditava-se que uma veia do dedo anelar esquerdo dava direto no corao - dado que a anatomia atual desmitificou. Era a vena amors ("veia do amor" em latim). Mas a conveno no  universal: cristos ortodoxos, numerosos na Grcia e no leste europeu, usam a aliana na mo direita. 

Este ms neste planeta
DIA 4
Finlndia
Carregamento de esposa - Maridos pem as mulheres nas costas e apostam corrida numa trilha de 253,5m com areia, grama, cascalho e obstculos. O casal mais rpido recebe o peso da mulher em cerveja.
100 BARRIS DE LEO de oliva besuntam os lutadores do festival Kirkpinar, na Turquia - homenagem a soldados que "descansavam" de batalhas.

Dia 12
Austrlia
Regata de latas de cerveja - Equipes projetam barcos de latinhas de alumnio para competir. Na disputa mais legal, os navegadores caam um objeto escondido na gua e se atacam com pistolas de gua e bombas de farinha.

Dia 24
EUA
Festival do Alho  A cidade de Gilroy, Califrnia, recebe entusiastas de um dos bulbos mais populares da culinria. Tem competio entre chefs, concurso Miss Alho, e barracas com todo tipo de comida carregada no tema do festival - o sorvete de alho  grtis.

LISTA
Quais so as maiores dvidas externas atualmente? - Daniel Xavier. Juiz de Fora, MG
1- EUA US$ 17,1 TRI
2- REINO UNIDO US$ 9,15 TRI
3- ALEMANHA US$ 5,59 TRI
4- FRANA US$ 5,37 TRI
5- HOLANDA US$ 4,13 TRI
21- BRASIL US$ 2,24 TRI


O POVO QUER SABER:
A dvida que se destacou no Google este ms
QUEM INVENTOU O TOQUE DE RECOLHER?
FOI ALFREDO, o GRANDE, rei de Wessex (um dos reinos que deram origem  Inglaterra), em 872. Ele criou o cur feu - "cobrir o fogo" em francs -, perodo da noite em que a iluminao pblica era apagada para evitar que as chamas das luminrias incendiassem a cidade de Oxford. Em 1068, William, o Conquistador, primeiro rei da Inglaterra, decretou uma lei nacional de recolhimento. No sculo 16, na Europa e nos EUA, havia toques de recolher para trabalhadores e escravos. Aps a Revoluo Industrial a prtica ganhou outras razes: com os pais no batente, as crianas ficavam  toa e uma das justificativas para o recolhimento era prevenir delitos juvenis. Em locais em guerra ou vitimados por desastres, a medida  usada para evitar o caos. 

Quem  o artista que faz os desenhos das cdulas brasileiras, e por que cada nota tem um animal diferente? - Marclio Lima, Graa, CE 
PERGUNTA DE GRAA, resposta *barata* valiosa. Por segurana, o Banco Central no revela o nome dos artistas que confeccionam o dinheiro brasileiro, Marclio - sim, h um time envolvido no design das cdulas. Desde 1994, as notas estampam espcies da fauna nacional, mas no h registros sobre a escolha de cada uma. Os bichos nas notas recentes, de R$ 2 (tartaruga-marinha) e R$ 20 (mico-leo dourado), foram eleitos entre espcies ameaadas de extino por votao online. 

No consigo escovar os dentes com uma escova que no seja dura. Com cerdas macias parece que eles no ficam limpos. Tem sentido isso? - Alessandra, Carambe, PR 
PARECEM MAIS LIMPOS, mas no so, Alessandra. Escovas de dentes duras podem desgastar demais o esmalte dos dentes, deixando-os com aspecto mais liso e brancos. S que isso pode danificar gengiva e dentes causando retrao gengival e sensibilidade dentria. Logo, escovas de cerdas macias so as mais recomendadas, porque limpam bem sem agredir a boca. 

PROVRBIO DO MS
Alles hat ein Ende, nur die Wurst hat zwei
Tudo tem um fim, s a salsicha tem dois. 
ALEMES so especialistas em criar metforas com salsichas e linguias. A mensagem embutida neste ditado : o que  bom no dura para sempre.

CONEXES
De Medina a Gabriel Medina
Por Lucas Baptista

Medina - Cidade da Arbia Saudita em que est o tmulo do profeta Maom, fundador do Isl, listado no livro As 100 Maiores Personalidades da Histria, de Michael H. Hart. Por isso,  um dos locais mais importantes para os muulmanos. At o sculo 7, Medina era governada pelo...
Imprio Sassnida - Foi o ltimo Imprio Persa pr-islmico, reconhecido como uma das principais potncias da sia Ocidental e Central. Entre os sculos 3 e 7, rivalizava com o Imprio Romano e foi afrontado por uma campanha militar assim que Roma elegeu o imperador...
Diocleciano - Entre os anos 284 e 305, salvou Roma da derrocada iminente. Promoveu reformas na administrao e no recrutamento militar, aumentando seu exrcito de 350 mil para 500 mil homens. Alm disso, mandou matar o capito de sua guarda pessoal... 
So Sebastio - Mrtir e santo catlico. Por ser brando com os prisioneiros cristos de Diocleciano foi julgado como traidor. Ele foi executado, mas seu nome no morreu, vindo a batizar a mais antiga cidade do litoral norte paulista, onde nasceu... 
Gabriel Medina - Campeo mundial de surfe. Com 17 anos, foi o surfista mais novo a vencer uma etapa na elite do esporte, logo na estreia. Em 2015, foi eleito uma das cem pessoas mais influentes do mundo da revista Time, como Maom  na histria.


MANUAL
Por Bruno Machado

Pegue leve e responda esta pergunta que me fao todos os dias teis:
Como me dar bem num restaurante por quilo? - Solito Galego, Itamarac, PE
SE FOR DIGERIR. NO BEBA - Bebidas em excesso atrapalham a digesto e pesam na conta. Segundo a Associao das Empresas de Refeio e Alimentao Convnio para o Trabalhador (Assert), elas representam at 17% do valor da refeio.
PLANEJE O PRATO - Analise o bufe antes. Itens baratos ficam no comeo e os mais caros no final. Se voc escolhe conforme a fila anda, vai pegando de tudo e paga caro pelo que  simples.
V DE SALADA - Vegetais crus compensam. Especialmente os folhosos, que so leves e ricos em fibras, criando volume no estmago e aumentando a saciedade. Cenoura e beterraba cruas so at 50% mais leves que cozidas por causa da gua absorvida. 
A CARNE  MAGRA - Esquea carnes com ossos e prefira bifes bovinos - um fil de frango de mesmo volume pode ser 40% mais pesado. Para temperar a salada, azeite, limo e vinagre so mais leves do que molhos cremosos. 
OLHO NA MASSA - Dentre os carboidratos, prefira arroz - se for integral, melhor ainda. Ele tem mais fibras que batata e macarro - ou seja, sacia mais- e tambm absorve menos gua, pesando at 25% menos.

Entre as frituras, prefira batatas, menos densas que os salgadinhos, que absorvem muito leo .
Se for pedir sobremesa, prefira gelatina ou melancia (sem casca), que so pouco densos
Ah, o pozinho pode ir fora do prato.
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6# MUNDO SUPER julho 2015

NOSSA REDE SOCIAL

AT DARTH VADER CURTIU 
A reportagem O Lado Negro do Facebook (jun/15) demonstrou a que nvel chega o controle feito pela rede social. Muitos leitores ficaram surpresos com as tramoias e pensaram at em deletar seus perfis.

CRIEI UMA PGINA no Facebook para compartilhar ofertas de equipamentos eletrnicos. A ideia era reunir apenas amigos, mas me sugeriram abrir para outras pessoas. Paguei R$ 250 para "impulsionar" a pgina e, incrivelmente, foram 7,5 mil curtidas em um ms. Decidi no renovar o pagamento e eles simplesmente tiraram a pgina do ar. Depois, pediram desculpas e recolocaram, sem nenhum post ou like, e ainda tiveram a cara de pau de falar que eu poderia impulsion-la novamente. - Evandro Ferreira 

ESTAVA SOFRENDO com os sintomas descritos. O remdio foi radical: desativei minha conta no Facebook. Estou me sentindo melhor e mais produtivo e no pretendo reativ-la, no quero me tornar refm de rede social e nem ser monitorado como uma "cobaia". - Giovani Lima Montenegro 

 UMA LEITURA NECESSRIA para todos ns, usurios de redes sociais. No sei mais por quanto tempo manterei minha conta...  muito estarrecedor nos dar conta do quanto estamos expostos. - Loreno Braga Salles 

ME ASSUSTEI com os dados ainda obscuros da rede social que se sustenta nos Termos de Condio para ser, muitas vezes, antitica. Ano passado fiquei quatro meses fora do Facebook e admito que foi um dos perodos mais profcuos da minha vida. Li mais, me interessei mais, me estressei menos. - Dennis Lurai 

AVISAR AO AUTOR da matria que no fique triste com a nica cutucada que ele teve na vida: hoje ele ter outra! Thiago Arajo 

DEBATE
Uma polmica, duas opinies.
NO POST GAME OF THRONES, TEORIAS E ESPECULAES, SOBRE O FIM DA 5 TEMPORADA abr.ai/BtddHB

DA MESMA MANEIRA que foi preciso Brandon Stark sofrer um trauma para despertar os poderes warg que o sangue Stark tem, Arya e Jon tambm vo passar por traumas para despertar tal poder! - Pedro Henrique.

A TRADIO Targaryen permite que um homem tenha duas esposas. Ento, se for comprovado que Raegan e Lyanna se casaram ungidos pela f dos Sete, Jon teria legitimidade para assumir o Trono de Ferro.  Tiago

3 LEITORAS ATIVISTAS 
contra o Essencial sobre a terceirizao (jun/15).
1- O A terceirizao iria piorar muito a vida do trabalhador. Os maiores ndices de desrespeito  legislao e de acidentes de trabalho vm de empresas terceirizadas. A gente no quer s emprego, a gente quer trabalhar com segurana, com garantias. Carolina Borges 
2-  inegvel que as relaes de trabalho tero que se ajustar s inovaes, mas terceirizao no  garantia de nada. Os empresrios sero os grandes beneficiados, com mo de obra muito mais barata. - Fernanda Aruh 
3- A reportagem s mostra um lado e apela para as poucas desvantagens que leis trabalhistas atuais podem ocasionar aos trabalhadores. - Maria Lcia Posser

ISSO QUE  PRMIO
Achei a edio com matrias mais premiadas da SUPER sensacional. Algumas eu no conhecia, pois foram anteriores  minha assinatura. Lendo, me lembrei por que escolhi a SUPER como revista de cabeceira! - Suzana Aparecida Cordebello

LEITORA DO MS
ISABELA FORTALEZA e um grupo de colegas, inspirados pela matria A dor que no passa nunca (mar/15), propuseram um diagnstico para a aracnoidite adesiva, doena portada pela autora da reportagem, Fernanda Ferrairo. A ideia foi utilizar nano-partculas marcadas com anticorpos para detectar o ponto exato da meninge que foi afetado pela doena. "Lgico que precisamos aprofundar, foi apenas um trabalho da faculdade", diz Isabela, toda modesta.

"Como pode uma capa to infeliz? Negro para mim tem diversos significados, e todos so positivos." - Joel Neves, um dentre os vrios leitores que ficaram chateados com o ttulo da capa O Lado Negro do Facebook (jun/15). 

FICA A DICA: SEGUIR AS DICAS DA SUPER
Segui a dica da SUPER e fui at o Netflix procurar este documentrio sobre a Atari. Simplesmente f***. Uma aula extraordinria sobre como ouvir a opinio do usurio antes de lanar projetos em grande escala. Alm disso, uma viagem no tempo, um mergulho em referncias dos anos 1970 e 1980. Denis Levati, assistindo a Atari: Game Over

Manifesto SUPER 
Nossas mudanas grficas e editoriais foram ilustradas em um vdeo-manifesto. Quer entender melhor o conceito do nosso projeto novo? Assiste l! bit.ly/lBtdc6e 

CHECKLIST
Este ms, no mundo SUPER.

DOSSI CAIXA-PRETA
Revelamos os mistrios por trs dos acidentes areos.
R$14

VDEO V OU F
Uma srie de vdeos que  destruidora de mitos. Conhea: on.fb.me/1fmKWbL
S I T E

CARA NOVA NA INTERNET
O site da SUPER tambm foi repaginado! V l as novidades: superinteressante.com.br

FOI MAL
 No livro A volta ao mundo em 80 dias, o milionrio Phileas Fogg no sai pelo mundo no encalo do ladro do Banco da Inglaterra. Na verdade, ele  confundido com o ladro e perseguido mundo afora por um detetive (Fugindo da escola, jun/15) 
 Citamos o campeo mundial de xadrez Bobby Fischer, mas trouxemos a foto do campeo seguinte, Anatoly Karpov (Conexes, jun/15).
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7# REALIDADE ALTERNATIVA

10.027 CARACTERES DE LITERATURA

 LUZ DO DIA
Um conto de Miguel Sanches Neto 

     NA NOITE ANTERIOR, Lindolf participara de seu primeiro encontro na sede do Partido Nazista, onde a Juventude Hitlerista na qual acabara de ingressar se reunia para atos de doutrinao. Nesses momentos, depois de uma pregao exaltada sobre o triunfo dos melhores e o direito herdado com o sangue, os rapazes se dedicavam a ouvir as composies mais emotivas da msica clssica. A cada encontro um msico era escolhido para revolver os sentimentos dos presentes, localizando l no fundo de cada indivduo a mnima semente de comoo para faz-la aflorar numa limpeza dos sentidos. No h lugar para seres emotivos na sociedade moderna, em que as mquinas precisam ser operadas friamente. Essas sees de msica atendiam a um mtodo de preparao do homem novo, nascido da ideia e no da sensibilidade. 
     O grupo havia ouvido o oratrio L'Enfance Du Christ, de Berlioz, numa vitrola Enal Kuhn que encheu a sala de sons que vibravam no interior dos rapazes. O ritmo lento, feminino, as vozes melfluas do coro, tudo os levou a um desejo de extravasar as sensaes. O disco foi tocado duas vezes e em pouco tempo cresceu o choro na sala. O mais fraco comeava a lacrimejar contidamente, como se fizesse algo vergonhoso, e logo outro jovem uniformizado limpava os olhos com as costas da mo. Ao lado, contagiados pela msica e pelo transe dos vizinhos, todos se entregaram s lgrimas. Nesse ponto, o responsvel pela vitrola aumentou o som. Sem medo do ridculo, os soldados choraram pela grandeza da arte, por sua suavidade  mstica, pela beleza da execuo de uma msica comovedora, que servia ao esprito como um vomitrio ao estmago. Colocavam tudo para fora. Ao final, as luzes foram apagadas por um momento, enquanto cada um se recompunha. Quando foram novamente acesas, voltou a funcionar a vitrola, que tocou a abertura da pera Rienzi, de Richard Wagner, a preferida do Fhrer. Lenta e calmamente, os jovens foram se fazendo altivos e sbrios. 
     Os amigos de Lindolf haviam combinado uma busca aos negros fugitivos para aquela manh ensolarada de sexta-feira, com passarinhos voando entre as rvores, indiferentes  presena das pessoas pelas estradas rurais. No se caavam aves, e mesmo os jovens agora queriam fazer algum dinheiro com o fornecimento de almas ao trabalho compulsivo nas indstrias e fazendas. 
     As fbricas nazistas da regio estavam aceitando mais gente em seu sistema de educao operria, implantado nos municpios que haviam aderido ao tratado de cooperao com o Terceiro Reich. Prevaleceriam as leis de Nuremberg onde houvesse ampla maioria germnica naquele ano de 1940, quando a Alemanha de Hitler se expandia no apenas na Europa. 
     Em vrias localidades urbanas do Sul, os negros eram isolados em alojamentos erguidos no ptio das fbricas. Em sua visita ao Brasil, em 1938, Hitler fez a defesa da tecnologia a uma multido paralisada por seu discurso: 
      A fora atual so os tanques, avies, submarinos e navios; a cavalaria tem seus dias contados. 
      Aqui nos trpicos  preciso criar uma civilizao contempornea. 
     Uma vez internada nas fbricas, essa populao passava por um treinamento no manuseio de equipamentos industriais vindos da Alemanha, e ia sendo destinada aos postos de trabalho que cresciam com a guerra. O Brasil produzia armas, roupas, alimentos, objetos e peas de reposio para as tropas de Hitler, num crescimento que atraa aos Estados sulinos tcnicos brancos de todo o Pas. Mesmo assim, eles precisavam de muito mais gente. 
     Nos alojamentos colados s fbricas, haviam sido separadas as alas masculinas e femininas. Todo negro sem registro de emprego era violentamente recrutado. Muitos conseguiam evitar a captura fugindo para outros Estados ou se exilando em locais remotos, recriando assim os quilombos. Nestes, vivia-se de pequenas roas de mandioca e milho, de animais das matas e de saques nas propriedades vizinhas. Os moradores denunciavam os espritos rebeldes que se esquivavam do servio. Como uma legio de jovens das colnias havia sido incorporada s tropas de Hitler, tendo sido encaminhada  Europa, os negros deviam mostrar tambm sua dedicao ao novo Brasil. 
     Nesse clima de perseguio, os amigos de Lindolf receberam um alerta naquela noite. Contando com a proteo dos elementos mais fracos da comunidade, alguns negros tentavam embarcar em trens que os levariam ao Rio de Janeiro, onde no seriam obrigados a participar da prosperidade industrial. Caminhavam no escuro e dormiam de dia na mata. Com sorte, os jovens conseguiriam mais uma dzia de trabalhadores para as empresas, recebendo uma boa paga para cada adulto saudvel.  
     Espontaneamente, haviam surgido tropas nazistas independentes que cuidavam da apreenso dos fugitivos. Faziam excurses a p pelas reas mais remotas, com armas e algemas para conduzir os prisioneiros. 
     Para Lindolf seria uma provao. Talvez por ser novo na Juventude Hitlerista, no havia conseguido exorcizar completamente suas emoes com o choro e depois com a msica herica de Wagner. E quando saram para atender ao alerta da presena de negros vagando pela regio, era motivo de zombaria. 
       voc quem vai atirar primeiro  os amigos brincavam. 
     Alguns traziam laos de couro tranado para prender aqueles que tentassem escapar. Atirariam apenas em caso extremo, pois aqueles homens e mulheres s tinham valor se vivos e sem ferimentos. Incentivavam ento os disparos apenas para atormentar o novato completamente assustado. 
     Lindolf no sabia por que aceitara participar do grupo. Talvez apenas para no despertar suspeitas, que poderiam causar problemas a seus pais. O senhor tem um filho que no aprova as nossas ideias, diriam os homens poderosos da cidade. Estava ali, portanto, mais por necessidade do que por convico. 
     Caminharam por mais de trs horas, verificando os capes de mata nas margens da estrada que levava  estao de trem. Tudo ficara mais calmo e ordenado depois que os desocupados foram recolhidos s fbricas e fazendas. Mesmo as cidades estavam com menos tumulto, cada cidado se dedicando a alguma tarefa. Naquele caminho interiorano, havia um silncio cortado apenas por carroas comandadas por agricultores ou por 
     
     
     homens derrubando alguma mata num ritmo regular de machadadas. 
     Os fugitivos no se afastariam muito deste ponto e, se estivessem mesmo naquela direo, seriam surpreendidos. Em cada novo local a que chegavam os jovens soldados de Hitler, Lindolf era mandado na frente, para se acostumar ao velho papel de capito do mato em busca de mais mo de obra. Depois de uma inspeo minuciosa, ele voltava aliviado, pois o confronto no se dera. Seu batismo estava sendo branco, sem nada que o marcasse para sempre. 
     Almoaram em estilo de piquenique, com broas, linguias, salames, geleia e vinho, tudo trazido em embornais de pano, divididos entre cada integrante da tropa. 
     Logo depois dessa refeio feita  sombra de uma rvore de copa larga, encontraram uma pequena mata que seria o esconderijo  perfeito para um grupo em fuga. Todos estavam meio sonolentos por conta da comida e da bebida. 
     Pela primeira vez, Lindolf sentiu um impulso brio de herosmo. Confiando no fato de que nunca encontrava ningum, entrou animado na mata, o rifle engatilhado, como se perseguisse um inimigo certo. 
     Um galho com espinho atingiu seu rosto, fazendo escorrer um fio de sangue, o que o tornou mais impulsivo ainda. Os amigos riam do jovem soldado, enfim possudo pelo esprito da guerra. 
     No se ouviu nenhum tiro e ele demorou pouco para voltar, lvido. Provavelmente pelo ferimento mnimo, trazia um olhar assustado, de filhote que descobre que a vida no  s brincadeira. Os amigos gritaram com ele, empurrando-o; nem isso o tirou de seu estado de choque. 
     No resto do dia, continuaram no encontrando nem sinal dos negros fugidos. 
     Aps o almoo, quando estavam em uma ponta de mato colada  estrada, comendo broa e bebendo o caf trazido numa garrafa de vidro tapada com rolha, eles foram descobertos. O mato se mexeu e surgiu um rapazinho. No falou nada para eles, ficou apenas olhando. Trazia uma espingarda de caa, devia estar atrs de algum animal. 
     Assim que Joo o viu, a arma sendo segurada com as duas mos, teve a reao de se colocar na frente da mulher e do neto. Ficaram paralisados uns segundos, o casal olhando o jovenzito. 
     Uma voz de homem, fora da mata, o chamou. Surgiram mais vozes, frases em alemo, risos. Era com certeza um grupo de caa. Ele no estava sozinho e devia ter entrado ali para vistoriar a mata. 
     O casal no disse nenhuma palavra nem fez o menor gesto, de to assustado. O beb mamava o dedo doce da  av. No percebia o outro. Cresceu o barulho de sua boca sugando o nada. O silncio era to sufocante que Joo estremeceu ao ouvir o farfalhar do mato sendo pisado. O rapaz comeou a voltar pelo mesmo caminho e antes de sair da mata olhou para trs, mais espantado que o casal. 
     Erendina molhou o dedo novamente e o afundou no acar, colocando-o na boca do menino. No teriam como correr com a criana. Esperavam pela entrada dos homens, que tambm estariam armados. Podiam ser das tropas de assalto. Talvez matassem os trs, deixando seus corpos na mata. Ou apenas quisessem lev-los presos para a cidade, destinando-os a algum campo de trabalho forado. Sem conversar nada, decidiram ficar ali, esperando. As vozes se fizeram mais alegres, brincavam entre si. Em seguida foram diminuindo. Estavam indo embora sem saber que, numa pequena clareira naquele capo de mato, um casal de velhos tentava salvar uma criana.  
     No final da tarde, ao retornar  cidade, os amigos culpavam Lindolf de p-frio, por causa dele no tinham conseguido localizar nenhum negro preguioso. 
     Uma cena singela, no entanto, encheu de jbilo o corao do jovem. 
     Perto de uma chcara, ele viu uma galinha carij com uma ninhada grande de patinhos de um amarelo intenso, todos andando em passo marcial. Um por um, eles entraram no galinheiro, enquanto a carij vigiava maternalmente a porta. 
     Lindolf sentiu tudo embaar e, para no chorar na frente dos amigos, olhou o cu, onde a lua aparecera  luz do dia. 
     
Miguel Sanches Neto nasceu em 1965 em Bela Vista do Paraso, PR.  autor de mais de 30 livros. Este conto foi retirado do universo de seu novo romance, A Segundo Ptria (Intrnseca), nascido da seguinte hiptese: e se Getlio Vargas tivesse apoiado Hitler na 2 Guerra?
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8# LTIMA PGINA

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ALTOS E BAIXOS
Os pontos mais elevados e profundos do planeta.
Infogrfco Tiago Jokura e Inara Negro

EVEREST, Nepal e Tibete. 8.848 m
K2, China e Paquisto. 8.611 m
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Pico da Neblina, Brasil. 2.994 m
Edifcio Burj Khalifa, Emirados rabes. 828 m
Mina Mponeng, frica do Sul -3.900 m
Depresso Litke, Oceano Atlntico -5.450 m
Fossa Sandwich, Oceano Atlntico. -7.235 m
Fossa Java, Oceano ndico. -7,725 m
Depresso Milwaukee, Oceano Atlntico. -8380 m
Depresso Chatlenger, Oceano Pacfico. -10.916 m

